A esta altura, exatos 20 anos após o lançamento de “Matrix”, todo mundo já conhece o efeito “bullet time” (aquele em que acompanhamos em câmera lenta, de vários ângulos, o movimento de pessoas e objetos), usado agora à exaustão no cinema. Ele está longe, no entanto, de ser um dos principais legados do filme, hoje um clássico moderno da ficção-científica.
 
Ao mostrar a história de um Escolhido (Neo, interpretado por Keanu Reeves) para livrar a humanidade da opressão das máquinas, num futuro próximo, a obra dos irmãos Wachowski tornou-se um dos filmes mais estudados dos últimos anos, tema de aulas e conferências em áreas como Filosofia, Sociologia, Psicologia e Engenharia da Computação.
 
“Matrix” teve a primeira exibição em 24 de março de 1999, em Westwood, nos Estados Unidos. No Brasil, só chegou em 21 de maio do mesmo ano. O sucesso desta ficção-científica garantiu duas continuações, “Matrix Reloaded” e “Matrix Revolutions”, ambos lançadas em 2003
 
Para Juri Castelfranchi, professor de Sociologia de Ciência da Tecnologia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o filme está mais atual do que nunca. “Especialmente entre os transhumanistas, que acreditam que, daqui a pouco, será possível fazer upload de nossas consciências nas redes, desistindo do corpo para ter uma consciência pura na internet atual”, constata.
 
Quatro questões
Castelfranchi brinca que a riqueza de discussão do filme é tão grande que daria para fazer um “congresso internacional de uma semana inteira”. Mas elege, entre os preferidos, quatro tópicos, dois ligados à Filosofia, um à Antropologia e outro à Sociologia. Começando por este último, ele chama a atenção para a questão do medo de virarmos escravos das máquinas.
 
“Na ficção-científica, intui-se muitas coisas que são nossos dilemas de hoje. Falam do aqui e do agora, a partir do que somos agora. Um problema que a sociedade não consegue gerir é o medo de que aqueles que seriam nossos escravos consigam ficar mais fortes e se libertar. O que ‘Matrix’ está dizendo é ‘cuidado ao construir algo ao qual tudo se delega’”, analisa.
 
Do lado da Antropologia, o ponto a ser levantado é: o que faz o ser humano ser humano? “Você precisa ter a consciência humana e um corpo humano. Nos filmes de terror, vemos muitos corpos sem consciência, como zumbis. No caso da inteligência artificial, são consciências humanas sem corpos e isso dá um medo danado na gente”.
 
Na luta que os humanos do filme promovem contra as máquinas, surge uma questão filosófica: até que ponto nossa felicidade está ligada ao corpo? Em “Matrix”, salienta Castelfranchi, a mente independe do corpo. “Se focarmos na inteligência, usando a emoção e o raciocínio, certamente seremos melhores do que as máquinas”, registra.
 
Por fim, o longa exibe uma discussão, também filosófica, sobre os objetos, se são eles meros instrumentos, nem do bem nem do mal. “Não é bem assim. As máquinas compram a nossa maneira de ver o mundo, refletindo relações de poder. Elas tendem a fortalecer quem está no poder”, pondera o professor.
 
Filme faz referências a equipamentos de rede de computadores
 
Especialista em Engenharia de Controle e Automa-ção , professor universitário que dá aulas sobre o tema, Marco Aurélio Birchal enxerga uma relação direta entre os personagens de “Matrix” e os equipamentos de rede de computadores.
 
“Personagens como Mouse e Switch carregam nomes de equipamentos. Até Morpheus, que é o nome de um software. O Oráculo, a quem Neo procura para saber se é o Escolhido, faz alusão justamente a um banco de dados muito importante e famoso”, observa.
 
De acordo com Birchal, há relações diretas entre os eventos da computação e situações usadas na narrativa, como o déjà vu (sensação de ter já presenciado determinado acontecimento) e o looping (repetição automática de uma ocorrência), mostrando que, “de fato, a trama ocorre dentro de um computador”.
 
“Quando vão em busca do Chaveiro, para abrirem certas portas, trata-se de uma referência às chaves de criptografia, de segurança de rede”, explica o professor, que vê como exagero a ideia de o homem ser escravizado pelas máquinas.
 
"(O cientista Albert) Einstein falava que qualquer tecnologia muito avançada parece algo meio mágico. Quando a gente não tem um entendimento da tecnologia, passa a adotar essa visão pessimista. De modo geral, a máquina está aí para auxiliar o homem, uma grande ferramenta para estender a capacidade humana”, analisa.
 
Para ele, o virtual nada mais é do que uma extensão do físico, que é limitante. Birchal cita como exemplo os óculos de realidade virtual, que transferem o seu usuário para outra realidade.
 
“Muito da discussão, especialmente no campo da sociologia, é sobre o medo de a tecnologia tomar nossos empregos. Isso não vai acontecer. De fato, um robô irá substituir o homem em situações insalubres e repetitivas que nada acrescentarão à pessoa. Na verdade, ele está dando uma condição melhor ao ser humano”, afirma.
 
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Keanu Reeves interpreta Neo, o Escolhido para salvar a humanidade das máquinas

 

ENTREVISTA / PSQUIATRA BERNARDO LYNCH DE GREGORIO

 
"Matrix" é um filme que, desde o lançamento, vem sendo estudado por sociólogos, filósofos, psicólogos e engenheiros de computação. Para você, qual é a grande contribuição do filme para a área psiquiátrica?
Do ponto de vista da Psiquiatria, o filme é uma grande metáfora sobre a subjetividade.  Ou seja, o quanto nossas vidas são frutos das crenças que nutrimos sobre nossas próprias existências e não propriamente do mundo objetivo. Vivemos imersos em um mundo ilusório onde a realidade é constantemente distorcida por nossas emoções e por nossos pensamentos (mais especificamente pelas ideias preformadas sobre o que é a realidade e quem somos nós). Assim, tudo o que vivemos é "filtrado" por um mecanismo chamado "projetivo". Nossas vidas são espelhos de nós mesmos e a isto denominamos "Projeção". Não que não exista uma realidade objetiva, um mundo real, mas se existe, jamais o conheceremos de maneira plena, mas sempre através de nossos órgãos dos sentidos que estão submetidos às nossas variações psíquicas constantes. Esta cognição relativa e subjetiva, esta interpretação das informações que obtemos do mundo, chama-se "Gnosia".
 
A discussão entre o que é sonho e o que é realidade, um dos motores do filme, já vinha sendo muito estudada há décadas e hoje é aplicada em análises da nossa percepção, não é verdade?
Sim, este é um dos temas mais antigos sobre o qual a humanidade se debate: o que é real o que é ilusório. Que "lugar" é este aqui no qual viemos viver nossas vidas. De onde viemos? Onde estamos? Para onde vamos? A ideia de que exista um "mundo espiritual", que seria mais real do que o que chamamos de "mundo real" existe desde a Pré-História e pode ser observada na grande maioria das religiões (se não em todas). Há intuitivamente um mundo transcendente ao qual temos acesso através muito mais das nossas mentes do que através dos órgãos dos sentido e que, de alguma forma, nos soa mais familiar. O Budismo, por exemplo, fala muito sobre a irrealidade da matéria e do "mundo sensível" (Samsara) afirmando que "o espaço é vazio". Hoje em dia a Física moderna comprova isto no estudo de partículas sub-atômicas. O Taoismo reverencia a não ação e afirma que a única Verdade é o Não-Expresso que não pode ser atingido. A ideia hindu do Pralaya, o período de não-existência do Universo, nos leva à mesma ideia. Os cristãos, quando fecham os olhos para orar, conectam-se com esta realidade transcendente. Espíritas e xamanistas entram em contato direto com estas realidades não-imanentes.
 
O filme parece sustentar uma ideia de Platão sobre sempre suspeitar o que vemos e nos deixar afiar pela "alma", ou melhor, pelo questionamento constante.
Sim, a metáfora usada por Platão em seu livro "A República" (Livro VII), conhecida como "A Alegoria da Caverna" é tornada praticamente literal na cena da rave na caverna que aparece logo no início do segundo filme da trilogia. Todo o primeiro filme é uma encenação cyber-punk do mesmo tema explorado por Platão: um indivíduo que consegue se desvencilhar das ilusões em que vivia e acaba por descobrir uma realidade muito mais abrangente. Esta metáfora refere-se às ilusões do mundo sensível em que estamos mergulhados, sombras (doxa) em contraponto com o Mundo das Ideias: a luz da razão.
 
A grande metáfora do filme está na frase em que as pessoas preferem não "despertar" e olhar para a escuridão interior. Por que isso acontece?
O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung é considerado um pensador neo-platônico, porque traz para sua teoria psicológica o mesmo princípio platônico das trevas (ignorância) da inocente inconsciência do nada saber, em contraposição à Luz (Arquétipos), que infelizmente está para além de nosso alcance, digamos natural, e requer um esforço transcendente contínuo para ser atingida. Entre ambas, a triste existência limitada humana que corresponde às sombras (ilusão), dentre as quais rastejamos. Nosso único guia: a razão transcendente, em busca do Inconsciente Coletivo. Jung dizia que quem abre os olhos dorme e quem sonha desperta. Este despertar é evidentemente transcendental, para dentro do infinito universo dentro de nossas mentes: o Inconsciente. Tudo muito lindo, mas é necessária uma grande dose de coragem para encarar este universo desconhecido e assustador onde habitam muitos monstros, pessoais e coletivos, que são nossas neuroses, nossas culpas e nossos medos. Sendo assim, muita gente prefere continuar fingindo que suas vidinhas restritas são a única realidade, ainda que sejam tristes e limitadas. A zona de conforto, o desespero de questionar paradigmas firmes, os impedem de despertar. "Não há despertar de consciência sem dor. As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo para evitar enfrentar a sua própria alma. Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim por tornar consciente a escuridão" (C. G. Jung).
 
O filme também mistura elementos da mitologia e da Bíblia. Como essas questões estão conectadas?
Nosso contato com o Inconsciente Coletivo é feito através de símbolos, metáforas, alegorias. Isto ocorre porque nosso ego limitado não consegue abarcar a grandeza dos conteúdos arquetípicos in natura, com sua ambivalência e infinitude intrínsecas. O estudo destes símbolos se chama "Semiótica" e para entendermos melhor onde estes símbolos se inserem, usamos de um mecanismo que se chama "Amplificação", procurando sua ocorrência em material coletivo, ou seja: nas diversas mitologias de diversas religiões de locais e épocas diferentes. Na trilogia Matrix isto não é diferente; há referências (conscientes e inconscientes) a um vasto material simbólico, o que inclui não só a Bíblia (Mitologia Hebraica e Mitologia Cristã), mas também a Mitologia Grega e até surpreendentemente a Mitologia Sumeriana.
 
 
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ENTREVISTA / RICARDO KELMER
Autor do livro "Matrix e o Despertar do Herói - A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas"
 
Por que você se interessou em escrever um livro sobre "Matrix"? Ele é quase um livro de autoajuda, não é verdade?
"Matrix" é um grande filme, que marcou a história do cinema e influenciou a estética de muitas obras posteriores. Além disso, instigou discussões sobre vários assuntos pertinentes, como o uso da tecnologia, inteligência artificial, dominação, religião. Ele fez os adolescentes, nas praças de alimentação dos shopping centers, discutirem sobre a natureza da realidade, o que é algo notável. Em lugar do termo "autoajuda", prefiro "autoconhecimento", como, na verdade, é todo livro que aborde questões da psicologia do inconsciente. 
 
Apesar de já ter ficado um pouco datado (telas em DOS, cabines telefônicas), o filme ainda nos surpreende ao exibir discussões muito ricas envolvendo filosofia e mitologia. Qual delas mais lhe chama a atenção?
Como toda grande obra, "Matrix" pode ser compreendido por diversos ângulos, como o socioeconômico, em que seres humanos são explorados em sua força de trabalho para a manutenção de um sistema injusto e opressor. Em meu livro, porém, analiso o filme na ótica da mitologia e da psicologia do inconsciente, mostrando a aventura de Neo como uma reedição do antigo mito da jornada do herói e comparando-a ao processo de autorrealizaçao, que Jung chama de individuação, e que todos nós vivemos, tendo ou não consciência disso.
 
Creio que a ideia do seu livro parte de um desejo individual de mudar, de se conhecer e buscar a transformação. Como isso é expresso no livro?
Para Jung, o futuro da humanidade dependerá da quantidade de pessoas que conseguirem se "individuar", ou seja, tornarem-se in-divíduos, seres não divididos, unos, inteiros. Isso requer um grau avançado de autoconhecimento, para que se consiga harmonizar consciência e inconsciente. Individuar-se significa autorrealizar-se profundamente, efetivar as potencialidades. Porém, numa sociedade como a nossa, que prioriza o consumismo e a satisfação imediata, esse olhar para dentro não é estimulado, e assim as pessoas não se aprofundam em si mesmas e não se questionam verdadeiramente sobre o que são, e as divisões e conflitos internos persistem. O resultado final é a constatação, na velhice, que vivemos uma vida falsa, o que é muito triste e frustrante.