Diogo Melim compara o encontro da banda com Djavan, grande ídolo do trio de irmãos, como uma festa debutante, “naquele momento em que a estudante desce a escada, com todos esperando embaixo”. Ele não esconde que, ao ver o cantor alagoano entrar no estúdio, foi tomado por um frio na barriga. “Não tinha como sair, a porta estava atrás dele”, diverte-se.

A dobradinha com Djavan se dá no álbum “Deixa Vir do Coração”, já disponível nas plataformas digitais. São 13 músicas da lavra do hitmaker que ganharam uma nova leitura na voz e no estilo do Melim, entre elas as clássicas “Oceano”, “Azul”, “Se” e “Flor de Lis”. Além de uma participação especialíssima do homenageado na faixa “Outono”.

Diogo não tem dúvidas de que, aos 70 anos, ainda irá se lembrar do dia em que gravou com Djavan e cantou ao lado dele. “É o tipo de coisa que é muito intenso, como a melhor coisa de sua vida, e ao mesmo tempo muito duradouro. A sensação é de uma gratidão a prazo. A gente ainda está digerindo de uma maneira ótima. Não tenho palavras para agradecer e descrever o que sinto”.

Rodrigo Melim também ficou impactado ao ficar cara a cara com o ídolo. “Eu me senti muito privilegiado por a gente estar ali. Imagine quantas pessoas gostariam de só conhecer; e nós estávamos ali rindo juntos”, lembra. Na gravação, conta ele, Djavan disse que pensava que o Melim era originário do Sul e desconhecia o fato de a banda ser formada por irmãos. “Com havia mais gente participando, ele às vezes perdia uma entrada e começávamos a rir”, detalha.

A escolha de “Outono” partiu do próprio Djavan, o que deixou o trio bastante surpreso. “Ele a escolheu por ser como o lado b do trabalho dele. Djavan queria uma música que não fosse tão cantada por todo mundo para dar este ar de ineditismo com a gente”, explica Gabi. Na questão musical, a única solicitação do mestre foi de que fizessem, na segunda parte, algumas aberturas de vocais para ele.

A maneira espontânea como Djavan quis participar do disco, não se contentando apenas em “emprestar” os seus grandes sucessos, foi uma questão que martelou o grupo por muito tempo. Eles não tiveram coragem de perguntar diretamente a Djavan. A resposta só veio com o  filho Max Viana, grande conhecedor da obra do pai e produtor do álbum.

“Por que a gente? Ele recebe convite de todo mundo.  Por que participar desse trabalho? O Max explicou que não interessava a ele fazer coisas que só fossem mercado, já que tinha conquistado tudo que queria conquistar. O mais importante é que ele estava se sentindo empolgado. Para ele, era isso que valia”, salienta Diogo.

O Melim assinala que o desafio maior do grupo foi a responsabilidade de propor um álbum como “Deixa Vir do Coração”. Ele pondera que “uma coisa é gostar, outra é estar profissionalmente fazendo um álbum, cantando músicas do Djavan que são realmente complexas”. Outro desafio foi descobrir que, após tanto tempo na música, “que não sabiam muita coisa”.

Diogo ressalta que seu maior receio era de que as pessoas pudessem encarar o disco como um resumo da vida dos Djavan aos  olhos do Melim. “Não é isso. Djavan tem uma obra muito vasta, de ritmos diversos. Simplesmente seguimos a vontade de cantar músicas que a gente gosta e que influenciaram a nossa vida, nossa carreira, nosso som”.

djavan

Djavan participa da homenagem cantando com o grupo na faixa "Outono"

Conexão com o público jovem

Com um público formado principalmente por jovens, o Melim vê no projeto de “Deixa Vir do Coração” uma forma de o grupo se tornar uma espécie de embaixador de Djavan nesta faixa de espectadores.

“O público mais novo talvez não conheça o som de Djavan. Acho que podemos traduzir a música dele para a galera que curte nosso trabalho, mostrando para eles como é bom ouvir uma canção de qualidade”, afirma Rodrigo.

“Eu vejo o Melim como um facilitador, fazendo a conexão com a galera mais jovem. (É uma maneira) Reeducar por meio da música. Djavan tem uma obra muito densa. É importante que a galera beba mais dessa fonte”, analisa Gabi.

Rodrigo destaca que “Djavan é tão grande que já fez praticamente todos os estilos musicais, do samba e do reggae ao pop”. Ele define o alagoano como um artista completo, de uma genialidade ímpar. Por isso foi tão difícil para eles selecionar as músicas.

“Foi um processo foi bem difícil. Existem muitas músicas que gostamos, outras que a gente imagina que as pessoas gostariam de nos ouvir cantar. Acabamos deixando algumas de fora que gostaríamos de cantar porque havia uma  limitação na quantidade de músicas”, diz Rodrigo.

O integrante do Melim conta que o grupo não queria gravar apenas os grandes hits, “as coisas que todo mundo conhece”. E optaram por fazer um mergulhar  na obra de Djavan.

O resultado é um projeto que “partiu do fundo do coração” da banda, segundo Rodrigo. “Diferentemente dos outros, ele não teve um lance de marketing. A vontade foi de realmente poder cantar, ser feliz cantando e poder homenagear o Djavan”.

Ele ressalta que “só de poder gravar as músicas dele, que é uma parada muito difícil de acontecer, de ele liberar (para terceiros), já tinha sido um presente para nós”.

O trio destaca a canção “Eu te Devoro” como uma das marcantes. Só de lembrar a letra, os olhos de Diogo se enchem de lágrimas. “Ela lembra um período difícil da minha vida, quando ficava longe da minha filha. Eu perguntava porque Deus tinha me dado uma filha se eu não poderia ficar com ela o tanto que gostaria. A música me fez entender: a gente não escolhe os desafios e hoje digo que, se eu pudesse voltar (no tempo), não faria diferente”.