Milton Gonçalves pede desculpas à reportagem do Hoje em Dia pelo palavreado, mas não abre mão de mandar um “que se dane” para quem espera dele uma posição de vítima em relação à sua cor.
 
“Não gosto desse chororô. Coitadinho é a vovozinha. Não sou escravo”, empolga-se, ao telefone, o ator de 81 anos, enquanto visita o apartamento recém-comprado por uma de suas filhas, Catarina.
 
É um domingo de muito calor no Rio de Janeiro, como ele mesmo frisa, e a temperatura do discurso de Milton também é quente: “Nós (negros) temos uma coisa chamada complexo de inferioridade”.
 
É por isso que prefere, muitas vezes, falar de seu trabalho, como um exemplo de sucesso e rompimento de barreiras, que será compartilhado com o público de Ouro Preto a partir de 17 de junho.
 
Homenagem
 
Nascido em Monte Santo de Minas (“Mais perto de São Paulo do que qualquer outra coisa, assinala), Milton será o grande homenageado da 10ª edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP).
 
É de uma fala do ator que saiu a inspiração para o conceito da Mostra: “O Negro em Movimento”, que buscará lidar com as formas de inserção do negro nas telas a partir da exibição de um curta e seis longas de Milton.
 
Ele não tem dúvidas sobre a força que os negros brasileiros têm em suas mãos: “Somos 52% da população. Poderíamos eleger o presidente da República. O problema é que querem ser brancos de qualquer maneira”, lamenta.
 
Com uma extensa carreira no cinema, teatro e televisão, Milton já foi chamado de “negro branco” por ter alcançado destaque na hierarquia da Rede Globo, como diretor de novelas importantes da emissora.
 
“Me incomodou profundamente ficarem contra mim, no lugar de aproveitarem o caminho que abri. Quem dirigiu ‘Escrava Isaura’ fui eu. Dirigi ‘Irmãos Coragem’ com o Daniel Filho. Os negros brasileiros não sabem disso”, afirma.
 
Na tela grande, ele participou de filmes importantes como “Cinco Vezes Favela (1962), “Macunaíma” (1969) e “Eles Não Usam Black-Tie” (1982), mas, como protagonista, não foram muitos títulos.
 
Firme em seu discurso, o veterano ator prefere salientar que recebeu todos os prêmios do ano de 1974 pela sua atuação como Madame Satã em “A Rainha Diaba” (1974), em que fez o personagem central.
 
“JUDEU NEGRO”
 
Teve melhor sorte que muitos colegas negros, segundo ele, colecionadores de “clowns, bêbados e assassinos”. Um dos motivos é a sua origem teatral: “Vim do Teatro de Arena. Recebi, ao lado de (Augusto) Boal e Vianninha, entre outros, os aplausos e o respeito como um dos núcleos mais importantes do teatro brasileiro”.
 
Sobre o recente episódio de uma peça de teatro (“A Mulher do Trem”) acusada de racismo por usar atores brancos com o rosto pintado para se passarem por negros, Milton comenta lembrando mais uma de suas façanhas: viver um judeu em “O Diário de Anne Frank”. Detalhe: era o único negro do elenco. 
 
Em sua edição comemorativa, a Cineop discutirá, de 17 a 22 de junho, a preservação, a história e a educação no cinema com a oferta de uma programação gratuita formada por filmes e seminários