Mais animados sim, mas com aquele característico ar desconfiado. É assim que o cinema mineiro comemora a recepção da animação do país no mercado internacional após conquistar, por duas vezes consecutivas, com “Uma História de Amor e Fúria”, em 2013, e “O Menino e o Mundo”, laureado no mês passado, o prêmio mais importante do formato, no festival francês de Annecy.

Como Minas Gerais é um dos principais polos de animação no país, sempre fazendo boa figura nos festivais, a expectativa dos realizadores locais é que os louros “respinguem” por aqui, levando a produção a um esperado salto. Ideias não faltam, mas elas esbarram geralmente na falta de estímulo governamental, na desorganização da classe e na concentração de filmes autorais, sem vocação comercial.

À frente da primeira animação em longa-metragem do Estado, “Nimuendajú”, ainda em produção, Tania Anaya já sente um ambiente favorável, chamando a atenção para o fato de que os frutos, na animação, surgem mais lentamente devido às peculiaridades da própria animação, que leva o dobro de tempo dos filmes live action para ser finalizada e ganhar as telas.

“Na esfera federal, as coisas já estão acontecendo. Eu mesma viajei a Annecy sem estar com filme inscrito, ao ganhar um edital de suporte da Agência Nacional de Cinema (Ancine), que dá estadia e ajuda de custo em festivais. Meu interesse foi o de apresentar o projeto e participar de oficinas e seminários. Aprendi muito e a troca de experiência foi muito rica”, registra.

Boa recepção

A diretora mineira percebeu a boa recepção dos estrangeiros aos projetos brasileiros. “Eles passam a nos olhar com outro status agora e surgem como possíveis coprodutores”, destaca Tania, que também aproveitou para interagir com outros realizadores do Brasil. “A animação é uma experiência meio solitária e é bom ter contato com pessoas de outras regiões que estão quebrando a cabeça com as mesmas questões”.

Outro premiado cineasta mineiro, Leonardo Cata Preta, avalia que ainda é muito cedo para mensurar o “efeito Annecy”. Mas, coincidência ou não, ele acaba de ter dois projetos aprovados em leis de incentivo: uma federal e outra municipal. “O momento, com certeza, é muito bom. Tem muito mais filmes sendo produzidos e a qualidade tem melhorado”, analisa.

Cata Preta, como muitos outros animadores mineiros, formou-se na Escola de Belas Artes da UFMG, desde a década de 80 um dos principais celeiros do país após a realização de um convênio da universidade com o National Film Board, do Canadá. Com inegável qualidade técnica e liberdade artística, Minas não conseguiu dar o passo seguinte, ficando atrelado ao “faça você mesmo” que dificulta o desenvolvimento industrial.