Integrante da primeira fornada de animadores em Minas Gerais, após criação de um núcleo da National Board of Canada na UFMG, no início dos anos 90, Tania Anaya agora se prepara para lançar o primeiro longa-metragem produzido no Estado com a técnica, refletindo o boom da animação no Brasil.
 
Após seis anos de pré-produção, a cineasta – nascida em Goiás, mas radicada em BH – começa a dar os contornos finais ao projeto “Curt Nimuendajú”, documentário animado sobre o etnólogo alemão que conviveu com mais de 50 povos indígenas no país. Previsão de lançamento é para 2020.
 
O filme deverá ser seguido de perto por outras produções mineiras no formato longa, atualmente em desenvolvimento de roteiro. A própria animadora aparece como produtora de “Filho da Puta”, que será dirigido por Savio Leite e Carla Guimarães, numa parceria com a empresa do gaúcho Otto Guerra, principal realizador brasileiro.
 
“Pegamos uma onda boa, de muito incentivo no Brasil e em Minas. Os editais agora estão mais divididos. Antigamente concorríamos com documentários e ficções e as animações ficavam sempre de lado”, registra Hanna Sophia, um dos cinco nomes à frente da produtora Animateria, criada no fim de 2016.
 
Como a realização de uma animação sempre foi mais demorada, em relação aos filmes live action, “era difícil bater de frente”. Com mais incentivos locais, ela prevê que o fluxo de animadores para fora do Estado tende a parar. “Tem tudo para dar certo, inclusive com a possibilidade do pessoal que saiu ser chamado de volta”.
 
Na Animateria, um dos projetos é o longa “O Relógio de Arthur”, animação em 2D que será dirigido por Rafael Coffee. Após ser finalista de concurso internacional, a produtora busca parcerias, em especial com canais de TV. No cardápio, constam ainda as sériese “Pequenas Maldades”, “O Pequeno Song” e “O Sabichão”.
 
Informação
Para Erick Ricco, do estúdio Apiário, que realizou ao lado de Fernando Mendes o curta “Balanços e Milkshakes”, considerado uma das 100 melhores animações produzidas no Brasil pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema, aspecto fundamental para o incremento dessa produção é o acesso à informação. “
 
O pessoal tem saído mais pronto da universidade, bem diferente da minha época. Fico bem impressionado com a qualidade dos trabalhos”, registra Ricco, que viajará nos próximos dias para a França, onde participará da MIPJunior e do MIPCOM, feiras de negócios para o setor. “Somos a única produtora mineira a integrar a delegação brasileira neste evento tão importante”.
 
Primeiro longa da produtora será “Ana, en passant”, de Fernanda Salgado, que tem como protagonista uma jovem dançarina negra. Em fase de desenvolvimento, o projeto participou de laboratório de roteiros no Festival de Berlim e participou do BrLab, em São Paulo, onde ganhou prêmio de consultoria de produção.
 
A produtora também prepara a série “Cabeça de Ovo”, focada num garoto que tem um ovo de galinha no lugar da cabeça, fã de rock progressivo e filmes. “É o projeto da minha vida, em que uso muito humor e aventura para mostrar esse nerd, tímido e inseguro, que se mete em aventuras absurdas e viagens no tempo”, registra Ricco.
 
anima “O Relógio de Arthur”, animação em 2D de Rafael Coffee, será produzida pela Animateria
 
 
Tania Anaya dirige "Curt Nimuendajú" e produz "O Filho da Puta", de Sávio Leite
 
Além da busca de recursos financeiros, a demora na produção de “Curt Nimuendajú”, anunciada há seis anos, se deve também à preparação da equipe para trabalhar num longa-metragem que misturará 2D com rotoscopia, que transforma em animação uma filmagem em live action.
 
“Foi preciso entender antes como funciona uma equipe de longa, trocar muitas ideias e, principalmente, inventar uma maneira de fazer”, explica Tania Anaya, uma apaixonada pela questão indígena e pela história do etnólogo que dá título ao filme, considerado o pai da antropologia brasileira.
 
“Percebi que seria uma forma fascinante de entrar neste mundo, pelas mãos de um sujeito que tinha um pé na cultura ocidental e outro, muito forte, na indígena. Curt ganhou vários nomes, casou nas aldeias e teve um envolvimento muito intenso com eles”, observa Tania, que iniciou o processo de animação há quatro meses.
 
“Vamos trabalhar a rotoscopia , mas não nos termos tradicionais. Não quero simplesmente desenhar em cima do real, mas dar uma pegada criativa, um traço mais personalizado”, analisa a cineasta, que também se preocupa com o excesso de movimento oferecido pelo processo.
 
Sul-Minas
Ao mesmo tempo, Tania produz o longa “O Filho da Puta”, em parceria com a Otto Desenhos. “Conheço a produtora Marta Machado, da Otto, de priscas eras, de fazermos viagem a Annecy (onde acontece o principal festival de animação do mundo) e passamos a cogitar uma parceria”, afirma.
 
A trama mostra um garoto, filho de uma prostituta, que descobre que um livro que folheia todos os dias antes de dormir fora um presente do pai que nunca conheceu. “O filme fala basicamente da busca de um pai, com referências a ‘Moby Dick’”, adianta Sávio Leite, que dirigirá o filme ao lado de Carla Guimarães.
 
“Tanto a Tania quanto o Otto Guerra estão envolvidos em outros projetos e queriam uma pessoa de confiança para dirigir. Achei maravilhoso, pois vai dar base e experiência para eu fazer o meu próprio longa”, destaca Leite, citando “O Belmiro”, adaptação de “O Amanuense Belmiro”, de Ciro dos Anjos.
 
O animador conta que este projeto já está há dez anos em sua mesa, enfrentando dificuldades de financiamento. “Creio que esse filme pegará bem o espírito de quem mora em BH. O mesmo ambiente que (Ciro) relata em 1937 pode ser transposto, sem perda, para 2018”, avalia Leite. A trama de “O Amanuense Belmiro” narra a vida burocrática de um secretário, que periodicamente anota, num diário pessoal, os acontecimentos de seu cotidiano.
 
anima

Cineasta Tania Anaya, nos bastidores de “Nimuendajú”, faz animações desde os anos 90

 
 
Maria Leite prepara longa sobre abuso contra a mulher
 
O prêmio de melhor atriz no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, pelo trabalho no curta-metragem “Mesmo com Tanta Agonia”, conquistado há uma semana, não tirou da cineasta mineira Maria Leite o foco na animação. 
 
Com dois filmes em stop motion premiados – “Casa de Máquina” (2007) e “O Quebra-Cabeça de Tárik” (2015) – ela prepara o longa “Orquestra Vazia”, que ganhou prêmio de desenvolvimento da Codemig, no ano passado.
 
“A história é baseada numa pesquisa minha, sobre o abuso contra mulheres, em que abordarei as violências diárias, o machismo e o patriarcado”, adianta Maria, que usará novamente a técnica de stop motion.
 
A protagonista é uma administradora de hotel, negra, que passa a conviver com barulhos perturbadores e visões estranhas. Como nos filmes anteriores, ela recorrerá a um cenário com vários mecanismos.
 
“Tenho formação em desenho industrial e antes fiz engenharia mecatrônica e elétrica. Sempre gostei de trabalhar com automação. Nunca imaginaria que usaria as máquinas para fazer, no lugar de carros, arte”, observa a animadora.
 
Além de incluir mais bonecos, ela lidará, pela primeira vez, com diálogos. “Será uma coisa um pouco mais urgente, puxado para o ambiente feminino e a conquista de espaço”, detalha a atriz e diretora, que espera a aprovação em editais antes de começar a produção.