“Escrever durante 13 anos, estando meus textos em minhas gavetas, já era uma coisa libertadora. Mas sair do bloco de anotações e fazer esse grito que a mulher precisa dar na sociedade é a melhor realização que tive até hoje. E não só minha, mas também de muitas mulheres”. É assim que a mineira Daniele Gomez, de 25 anos, define o significado do lançamento de “Passeios”, livro de prosas e poesias que marca a estreia dela como escritora. 

Com caráter autoficcional, a obra mergulha nas experiências e dores vividas por ela e que foram provocadas pelo machismo. Tudo isso tendo como pano de fundo cenários de Belo Horizonte e da cidade de Senhora de Oliveira, na Zona da Mata – município onde a escritora deu início ao livro. 

Daniele conta que a ideia inicial dos escritos era presentear o amigo e artista Flávio Carvalho. “Quando entreguei o manuscrito pronto, ele me convidou para transformá-lo em minha primeira publicação”, lembra. 

Parceria

Apesar de a ideia de transformar a produção em publicação ter partido de um homem, ela afirma que grande parte do trabalho de tornar o manuscrito um livro passou pelas mãos de mulheres. “Foi um processo intenso e um amadurecimento muito grande”.

Ela destaca que a obra se une, além da escrita, a outras expressões artísticas, como a ilustração e a música, que permeiam várias referências. Todas vindas da cena musical belo-horizontina e, principalmente, do coletivo Geração Perdida de Minas Gerais, do qual passou a fazer parte durante a produção da obra. “O desejo é que as pessoas possam recorrer às músicas enquanto leem. É uma forma de trazer também um caráter audiovisual”, descreve.

Identificação

Fora da ficção, a autora abre espaço para a própria voz em “Passeios”. “Encerro o livro com cartas pessoais, a última delas relata a violência sexual que vivi de uma forma muito explícita, ali é a minha dor mesmo”, relata.

Para Daniele Gomez, a leitura da obra pode ser um desafio. “Muitas colegas vieram me procurar e dizer que era difícil ler certas partes, era uma identificação dolorosa. Mas, por mais que seja assim, é aí que está a potência do livro, nesse grito, em mostrar que essas questões não estão em silêncio, não estão escondidas. Isso movimenta a mim e também a outras mulheres a colocarem para fora coisas que são difíceis de tratar”, afirma. 

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