“Eu vivo aqui, nesse buraco. Mas é um barraco estiloso. Bem punk, quase cenográfico”, diz Desali, calma e pausadamente, enquanto disputa uma partida de Mortal Kombat, num Super Nintendo surrado, com um amigo no sofá da sala. A casa de fundos no bairro Sagrada Família explana as referências e a filosofia de vida do multiartista mineiro: obras em tela e papel disputam espaço na parede principal em meio a brinquedos antigos, pichações e objetos aleatórios. A vitrola toca um disco de Patti Smith, enquanto outras dezenas de LPs se acomodam em caixas de papelão no chão. Na estante, quadrinhos underground, livros anarquistas e de filosofia se misturam com máquinas fotográficas antigas e uma garrafa de gim. 

Descemos para o ateliê, no cômodo ao lado, onde estão entulhadas ripas de madeira, tintas e ferramentas diversas. É dali que saem muitas das obras do artista, cujo trabalho se divide entre as artes plásticas, os quadrinhos, a fotografia e o audiovisual. Aos 35 anos, Warley Desali é um dos nomes mais intrigantes e prolíficos da produção contemporânea das artes visuais de BH – mas, para ele, ponto fora da curva, isso pouco importa.

Natural de Contagem, Desali – cujo nome artístico “vem do desalinho, do desencaixe” – começou a produzir ainda moleque, quando teve o primeiro contato com os quadrinhos e o punk. Influenciado pela rua, pelas culturas marginais e inspirado por quadrinistas como Laerte e Angeli, começou a fazer zines com personagens escatológicos, que também eram ilustrados em pichações. 

“Eu trabalhava num boteco e tentava UFMG, mas não entrava. Então, descobri a Guignard, fiz arte e educação e passei em 20º excedente”, conta. "Fiz licenciatura, dei aula por um tempo e depois fui para o bacharelado. Cismei de ser artista. Aí acabei com minha vida e tô aqui, jogando videogame com o Rafa (o amigo e também artista Rafael Fernne)”, completa, aos risos.

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Um dos diversos lambes do multi-artista, colados nas ruas da cidade, com mensagens de protesto

Na faculdade, Desali conheceu a Arena da Cultura e começou a história com os lambes, sempre com estética e mensagens fortes, que o projetaram na cena da arte urbana. “Depois, eu conheci o João Perdigão, da revista Zica, e rolou um boom das colagens. Queria intervir na rua, mas para chocar. Eu falava: ‘Gente, tô correndo risco aqui, os ‘ômi’ podem me pegar, vou perder tempo fazendo coisa bonita?’”, brinca. “Depois, a gente criou o coletivo Entre Aspas, que trabalhava com objetos na rua. Fazíamos instalações e esculturas com qualquer coisa que a gente achasse na rua. Foi bem importante na época”, diz.

A subversão dos suportes e as críticas ao mercado da arte ganharam fôlego com o Piolho Nababo, “anti-galeria” que ocupou o Maletta e se desdobrava em leilões itinerantes. “Era uma galeria anarquista, sem curadoria, sem seleção, sem respeito à obra e à disposição espacial”, explica. “Fazíamos leilões paródicos, que aconteciam em lugares alternativos e ocupações de BH. Começava com R$ 1,99. Se ninguém dava o primeiro lance, a gente rasgava a obra, botava fogo. Foi o ápice do caos”.

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As instalações da anárquica "anti-galeria" Piolho Nababo, que funcionou numa loja do Edifício Maletta

‘A periferia traz esse olhar de fora, de quem sempre teve tudo negado’, observa o artista

Em paralelo ao Piolho Nababo – que chegou a fazer uma edição com 600 pessoas, no Palácio das Artes – Desali participou de exposições e residências artísticas, uma delas na Sérvia, em 2016. Hoje um de seus principais focos, o audiovisual também sempre caminhou em paralelo. 

“Agora, eu e o Rafa estamos com a Videoarde. A gente faz fusões entre digital, mini-DV e VHS. Vamos cruzando a precariedade das mídias e manipulando mecanismos para chegar à abstração das imagens. É uma negação industrial”, explica ele, que também já dirigiu clipes e participou de filmes como “Arábia” (2017). 

Precariedade, inclusive, é uma das palavras-chave que agrupam a multifacetada e anárquica produção de Desali. “É um desapego com o suporte, com essa coisa do estilo, em que o artista vai elegendo preferências. Eu elejo a sujeira, o descartável, o ultrapassado, o efêmero, o acidente. Vou me apropriando disso: do errado, do escatológico, do contrário”, reflete. 

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Obra plástica de Desali feita em tela, misturando diferentes técnicas e cores fortes

“Eu uso tudo. Jornal, madeira encontrada na rua, papelão, tela. E não me preocupo com técnica. Faço com qualquer tipo de tinta, caneta. Tenho uns três, quatro tipos de pintura diferentes. Por isso, o trabalho tem tantas variações de cor e estilo”, continua o artista, cujo jeito manso contrasta com o caráter chocante das obras. 

“A periferia traz esse olhar de fora, de quem sempre teve tudo negado. Transporte, cultura, educação. É daí que vem essa raiva. Da rua, do punk, de ver que o artista de periferia está sempre nas entrelinhas”, sublinha.

A grande ironia, portanto, talvez seja o fato de Desali ter caído no gosto justamente das galerias e do mercado tradicional da arte – instituições que ele sempre criticou em suas criações. “Eu trabalho com o mercado zoando o mercado. Se eles são hipócritas, eu sou também. E eles querem esses marginais, né? Você está ali, rompendo, mas acaba virando produto, bibelô”, sublinha. 

“E ninguém quer ser eterno vira-lata. Não tenho esse romantismo, de acreditar no que eu faço. Não acredito em nada, só tenho necessidade de criar. Uma pulsão de fazer, independente de ser bom ou não. Se eles querem comprar, problema é deles, uai”.