Ela é uma das profissões mais antigas do mundo. Não, não, claro, não estamos falando da prostituição, embora Frances Amaral de Lima faça uma inusitada ponte entre as duas atividades. “Costumo dizer que somos as prostitutas das artes”, brinca, enquanto se mantém impassível, quase nua, diante de cinco alunos da Escola Guignard, hoje pertencente à UEMG, e onde já formaram-se diversos artistas de renome.

Frances é uma modelo vivo, já inúmeras vezes mostrada em filmes sobre a vida de pintores famosos. Na história de muitos deles, a modelo vivo – ou melhor, a musa inspiradora – teve papel central no trabalho – e até nas relações amorosas. Nos dias atuais, qualquer tipo de glamour sucumbe diante da falta de regulamentação e dos baixos pagamentos de quem se dispõe a ficar várias horas com o corpo exposto.

“Além de ser mal pago, ninguém se lembra de você e, mesmo estando em várias obras, não representa nada para os artistas”, explica a modelo, de 26 anos, ao justificar o forte termo “prostituta das artes”.

Essa desimportância, segundo ela, é medida nos olhares dos estudantes durante as suas pausas. “É como se dissessem ‘adianta a minha vida aí, menina’, não ligando a mínima para as dores que estou sentindo”.

Oração e dores

É por isso que Frances prefere lidar com os formigamentos e o desconforto nas costas e no pescoço e “sair morta” de um trabalho a ver a cara de maus amigos de quem está com o pincel. Ela destaca que, além de muita resistência e concentração para suportar até três horas de imobilidade, o modelo precisa conhecer bem o seu corpo. “Principalmente a mulher, já que não está do mesmo jeito todo dia e isso acaba se refletindo no trabalho”.

Enquanto está no centro de uma grande roda de alunos, dos mais variados tipos de traços, que vão do abstrato à busca da reprodução perfeita, Frances “ora muito”. E pensa no que irá fazer depois, “igual quando estamos parados esperando o ônibus”. Mas sua atividade não se resume às escolas, sendo contratada também para trabalhos particulares de artistas profissionais.

Intimidade

Um de seus prazeres é perceber como o outro a vê, o que pode resultar numa mulher toda pintada de verde – um dos desenhos de que mais gostou, por sinal. A nudez, aliás, nunca foi um problema para ela.

“É interessante por criar, sem querer, uma intimidade. Mesmo quando são pessoas com quem raramente converso, elas acabam lhe dando coisas depois, como presentes e comida”, diz a moça.

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O corpo da modelo serve de inspiração a estudantes como Débora Nogueira, autora do traço no detalhe. Foto: Frederico Haikal/ Hoje em Dia

‘Meu prazer é acompanhar o modus operandi da arte’

O maior desafio de Frances foi ter ficado em pé por mais de uma hora, carregando uma cerâmica de quatro quilos no ombro, sem poder se mexer. “Até mesmo os professores parecem não saber que estão lidando com um ser humano”, lamenta.

Moisés Borges já viveu situações parecidas, como imitar a posição do Superman voando ou mesmo posar de madrugada, num ambiente frio. “Tudo isso pode gerar complicações para a saúde, mas, ainda assim, para muito alunos, você não pode nem respirar”.

Para Moisés, a desvalorização dessa atividade começa entre aqueles que mais precisam dela, citando casos de professores e alunos que, por acharem “fácil” demais, assumem, eles próprios, o papel de expor o corpo numa sala de aula.

“Realmente, fazer pose uma, duas vezes, pode ser fácil. Mas depois de algum tempo, ele acaba não aguentando e passa a faltar e a se incomodar em tirar a roupa”, relata. Apesar dessa falta de reconhecimento, o prazer em ser modelo vivo não diminuiu.

Jeito para a coisa

“Tem que haver um certo amor, até porque, se dependermos disso financeiramente, não valeria a pena. Meu prazer está em acompanhar o modus operandi da arte e o de estar envolvido com artistas em crescimento”, salienta Moisés. Na verdade, ele tira seu ganha-pão das aulas de inglês que ministra.

Tanto ele quanto Frances começaram a posar para artistas de forma despretensiosa. “Não era algo que esperava para a minha vida, mas aí vi uma vaga anunciada no Facebook e, como queria sair do meu trabalho, resolvi me inscrever”, recorda.

Hoje, com a escassez de convites, ela se divide entre as aulas de artes plásticas na UEMG, e o trabalho como produtora de moda e modelo fotográfica. Já Moisés era garçom antes de observarem que ele levaria “jeito para a coisa”, há cerca de cinco anos.

Informal

“Não se trata de beleza, que não é uma exigência. A diferença – magro, gordo, velho, novo – dá valor ao estudo. O mais importante é o autocontrole do corpo”, que, durante a atividade, deixa a sua mente “ir embora” e, ao se dar conta, o tempo já se esgotou.

Os contratos dos modelos vivos com as universidades não são propriamente convidativos – geralmente com pagamentos mensais menores que o salário mínimo. Na UFMG, Moisés trabalhou três anos de maneira informal. “Só agora estão me pagando como autônomo”.