A poucos dias da realização do Oscar, premiação contestada por artistas como Spike Lee e Will Smith pela ausência de artistas negros indicados, o cinema mineiro, coincidentemente, abre espaço para filmes que têm nos negros a figura central das narrativas.

Um dos coordenadores do Cine Humberto Mauro, Philipe Ratton garante que o início, nesta sexta-feira (5), da mostra dedicada ao gênero “blaxploitation” – produções americanas protagonizadas e dirigidas por negros, na década de 1970 – não teve relação com a polêmica.

“Já tínhamos fechado a programação no finalzinho do ano passado, mas essa história do Oscar acabou sendo um gancho interessante para conferir a mostra”, afirma Philipe, que selecionou 19 longas emblemáticos da geração black power. As sessões são gratuitas e seguem até o dia 22 deste mês (confira a programação completa abaixo).

INFLUÊNCIAS

Além de sucessos como “Foxy Brown”, “Cleópatra Jones” e “Shaft”, que revelaram os ídolos Pam Grier, Tamara Dobson e Richard Roundtree, a mostra exibirá filmes que beberam dessa fonte – “Jackie Brown”, de Quentin Tarantino, é o maior exemplo.

“Não queria me concentrar apenas nos filmes do movimento, mas também mostrar que teve uma importância ímpar para o cinema americano, que foi muito influenciado por ele, apesar de sua duração relâmpago”, salienta Philipe.

Para o curador do Humberto Mauro, essa importância está na feitura de filmes pulsantes, que sobrepunham às suas imperfeições. “Eles não tinham uma carga de reflexão grande. Sua valia está na inserção do negro como protagonista”, analisa.

Ele assinala que, antes, os negros eram representados de forma grotesca, geralmente em papéis de serviçais. “Passaram a ser heróis, batendo em policiais, símbolos da repressão à luta pelos direitos civis e da opressão racista, o que antes era impensável”.

Os filmes protagonizados/dirigidos por negros só retomaram sua força duas décadas depois, quando Spike Lee lançou “Faça a Coisa Certa” e John Singleton apresentou “Boyz in the Hood”.
 
ANDRÉ NOVAIS

André Novais é o mais importante diretor mineiro em atividade. Formado em História na PUC e oriundo de Contagem, cenário de todos os seus filmes, o cineasta de 32 anos emplacou, em dois anos seguidos, convite para exibir suas produções no prestigiado Festival de Cannes, na França.

Seu primeiro longa-metragem, “Ela Volta na Quinta”, que estreará nos cinemas do país no dia 25 deste mês, segue o mesmo caminho dos curtas “Pouco Mais de um Mês” e “Quintal”, apresentados em Cannes. Além da locação ser a mesma, André não abre mão de escalar pais, irmãos e namoradas como atores.

APOSTA

Apesar de ficcionais, o diretor carrega alguns elementos autobiográficos. Mas o ingrediente que tem levado seus filmes a percorrerem mais de 100 festivais pelo mundo é a imersão no cotidiano. “É algo que, de alguma forma, vou querer manter nos meus filmes. É mais sincero, algo que gosto de tratar”, registra.

O “grosso” de suas histórias são temas que têm maior proximidade, especialmente o que acontece em casa. “Acredito muito nessa escolha, pois consigo falar com maior propriedade, com tudo saindo de uma forma sincera”, observa André. Em “Ela Volta na Quinta”, o cerne é a separação dos pais.

A pergunta mais comum dirigida ao cineasta mineiro é se os pais Maria José e Norberto se separaram na vida real. “O assunto veio da observação de vários casais e dos meus pais também. Crises normais, eles já tiveram. Mas amante, não”, detalha André, adiantando um dos conflitos da trama.

SILÊNCIO

Mas não vá esperando conflitos mais violentos, como nos dramas passionais. “À s vezes vamos decupando uma determinada situação até o ponto em que, dentro de uma crise, podemos encontrar momentos de tranquilidade também. É um tipo de silêncio que vai doendo aos poucos”, pondera.

André está feliz com o desempenho da família na tela. “Essa coisa de (usar) não atores é bem relativo. Pode dar certo, como também não. Minha família já tinha algo muito forte para a atuação. Tanto é assim que eles estão sendo premiados e chamados para participar de outros filmes”.

CARTAZ – Do longa de André Novais, um dos mais importantes diretores mineiros atualmente

CARTAZ – Do longa de André Novais, um dos mais importantes diretores mineiros atualmente

PRÊMIOS

Efeito da polêmica do Oscar ou não, fato é que as premiações seguintes ao anúncio dos indicados à estatueta dourada contemplaram artistas negros e filmes que abordam a questão racial.

No Sundance, encerrado no último domingo, o grande vencedor foi “The Birth of a Nation”, de Nate Parker. A produção conta a história de um escravo que lidera um movimento libertário nos Estados Unidos no início do século 19.

O Screen Actor Guild, que reúne os atores que trabalham nos EUA, divulgou seus premiados no dia anterior (30 de janeiro), também com grande presença de negros nas categorias principais.

Idris Elba saiu duplamente premiado, como melhor ator coadjuvante (“Beasts of no Nation”) e melhor ator em telefilme/minissérie (“Luther”). Queen Latifah, Viola Davis e a série “Orange is the New Black” também foram laureados.

“The Birth of a Nation"” – Filme premiado conta história de escravos americanos no século 19

“The Birth of a Nation"” – Filme premiado conta história de escravos americanos no século 19

OLHO: Após a polêmica, a presidente da Academia que confere o Oscar, Cheryl Boone, que é negra, anunciou que promoverá maior diversidade entre seus votantes
OLHO: O diretor Spike Lee disse que Hollywood precisa ampliar a diversidade com um programa semelhante ao da liga de futebol americano, que exige entrevista de negros para cargos de técnico

MOSTRA "O UNIVERSO PULSANTE DA BLAXPLOITATION"

Confira a programação:
 
Cine Humberto Mauro/Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1537, Centro)

Entrada franca
 
DIA 5 - SEXTA
17h “Sweet Sweetback's Baadasssss Song”, de Melvin Van Peebles (EUA, 1971)
19h “Super Fly”, de Gordon Parks Jr. (EUA, 1972)
21h Mandingo - O Fruto da Vingança, de Richard Fleischer (Mandingo, EUA, 1975)
 
DIA 6 - SÁBADO
14h “Blácula, O Vampiro Negro”, de William Crain (Blacula, EUA, 1972)
15h45 “Shaft”, de Gordon Parks (EUA, 1971)
17h30 “Com 007 Viva e Deixe Morrer”, de Guy Hamilton (Live and Let Die, EUA-ING, 1973)
 
DIA 7 - DOMINGO
14h30 “A Máfia Nunca Perdoa”, de Barry Shear (Across 110th Street, EUA, 1972)
16h15 “O Terrível Mister T”, de Ivan Dixon (Trouble Man, EUA, 1972)
18h “J..D.'s Revenge”, de Arthur Marks (EUA, 1976)
 
DIAS 8 e 9 - Não haverá sessões
 
DIA 10 - QUARTA
17h “Black Dynamite”, de Scott Sanders (EUA, 2009)
19h “Cleópatra Jones”, de Jack Starrett (EUA, 1973)
21h “Coffy: Em Busca da Vingança”, de Jack Hill (Coffy, EUA, 1973)
 
DIA 11 - QUINTA
14H20 “Jackie Brown”, de Quentin Tarantino (EUA, 1997)
19h “O Chefão do Gueto”, de Larry Cohen (Black Caesar, EUA, 1973)
21h “Wattstax”, de Mel Stuart (EUA, 1973)
 
DIA 12 - SEXTA
13h “Inferno no Harlem”, de Larry Cohen (Hell Up in Harlem, EUA, 1973)
15h “Black Mama”, White Mama, de Eddie Romero (EUA-FIL, 1973)
17h “Shaft”, de Gordon Parks (EUA, 1971)
19h “O Grande Golpe de Shaft”, de Gordon Parks (Shaft's Big Score!, EUA, 1972)
21h “Shaft na Africa”, de John Guillermin (Shaft in Africa, EUA, 1973)
 
DIA 13 - SÁBADO
14h “Com 007 Viva e Deixe Morrer”, de Guy Hamilton (Live and Let Die, EUA-ING, 1973)
16h15 “Super Fly”, de Gordon Parks Jr. (EUA, 1972)
18h “Sweet Sweetback's Baadasssss Song”, de Melvin Van Peebles (EUA, 1971)
20h “A Máfia Nunca Perdoa”, de Barry Shear (Across 110th Street, EUA, 1972)
 
DIA 14 - DOMINGO
16h “Bucktown”, de Arthur Marks(EUA, 1975)
18h “Foxy Brown”, de Jack Hill (EUA, 1974)
20h “Jackie Brown”, de Quentin Tarantino (EUA, 1997)
 
DIA 15 - SEGUNDA
15h Mandingo - O Fruto da Vingança, de Richard Fleischer (Mandingo, EUA, 1975)
17h15 “Wattstax”, de Mel Stuart (EUA, 1973)
19h “Blácula, O Vampiro Negro”, de William Crain (Blacula, EUA, 1972)
21h “Os Gritos de Blácula”, de Bob Kelljan (Scream, Blacula, Scream, EUA, 1973)
 
DIA 16 - TERÇA
15h “J.D.'s Revenge”, de Arthur Marks (EUA, 1976)
17h “Cleópatra Jones”, de Jack Starrett (Cleopatra Jones, EUA, 1973)
19h “Black Dynamite”, de Scott Sanders (EUA, 2009)
21h “O Chefão do Gueto”, de Larry Cohen (Black Caesar, EUA, 1973)
 
DIA 17 - QUARTA
15h “Bucktown”, de Arthur Marks(EUA, 1975)
17h “O Terrível Mister T”, de Ivan Dixon (Trouble Man, EUA, 1972)
19h “Shaft”, de Gordon Parks (EUA, 1971)
21h “Foxy Brown”, de Jack Hill (EUA, 1974)
 
DIA 18 - QUINTA
15h “Inferno no Harlem”, de Larry Cohen (Hell Up in Harlem, EUA, 1973)
17h “Acorrentados”, de Stanley Kramer (The Defiant Ones, EUA, 1958)
19h15 “Black Mama, White Mama”, de Eddie Romero (EUA-FIL, 1973)
21h “Super Fly”, de Gordon Parks Jr. (EUA, 1972)
 
DIA 19 - SEXTA
13h “Black Dynamite”, de Scott Sanders (EUA, 2009)
15h “Coffy: Em Busca da Vingança”, de Jack Hill (Coffy, EUA, 1973)
17h “J.D.'s Revenge”, de Arthur Marks (EUA, 1976)
19h “Wattstax”, de Mel Stuart (EUA, 1973)
21h “Blácula, O Vampiro Negro”, de William Crain (Blacula, EUA, 1972)
 
DIA 20 - SÁBADO
14h “Foxy Brown”, de Jack Hill (EUA, 1974)
16h “Bucktown”, de Arthur Marks (EUA, 1975)
18h “Jackie Brown”, Quentin Tarantino (EUA, 1997)
20h45 “Inferno no Harlem”, de Larry Cohen (Hell Up in Harlem, EUA, 1973)
 
DIA 21 - DOMINGO
16h “Black Mama”, White Mama, de Eddie Romero (EUA-FIL, 1973)
18h15 “Coffy: Em Busca da Vingança”, de Jack Hill (Coffy, EUA, 1973)
20h “Cleópatra Jones”, de Jack Starrett (Cleopatra Jones, EUA, 1973)
 
DIA 22 - SEGUNDA
15h “O Chefão do Gueto”, de Larry Cohen (Black Caesar, EUA, 1973)
17h “Com 007 Viva e Deixe Morrer”, de Guy Hamilton (Live and Let Die, EUA-ING, 1973)
19h “A Máfia Nunca Perdoa”, de Barry Shear (Across 110th Street, EUA, 1972)
21h “Sweet Sweetback's Baadasssss Song”, de Melvin Van Peebles (EUA, 1971)