Na seleção musical do carro do motorista de aplicativo Marcos Vinícius Cecílio, algumas canções se destacam entre as várias de rock e heavy metal. São as faixas do disco “Biotronic Genesis”, do grupo Acid Storm, do qual ele foi um dos guitarristas no início dos anos 90.

“Hoje consigo ter um distanciamento e gostar do trabalho que a gente fez”, observa. Foi numa época em que, apesar de o gênero ainda pertencer ao universo underground, a banda ganhou notoriedade, sendo considerada uma das cinco melhores da América do Sul.

Criada em São Paulo em 1989, com Robson G. nos vocais, Alessandro Jannuzzi na bateria, Chico Comelli nos baixos e Eric Weber nas guitarras, além de Marcos Vinícius, o grupo era “uma espécie de cruzamento de Iron Maiden com Metallica”, define o motorista.

“O Robson era um performer, já tinha um nome na época. Foi o primeiro vocalista profissional de heavy metal. E isso ajudou muito nos convites de lugares para tocar”, registra Marcos, que se via como um guitarrista apenas mediano.

“Fazia a guitarra base. O que eu gostava mesmo era de compor. Compusemos as músicas e resolvemos gravar antes mesmo da primeira apresentação”, recorda. É quando se cria o primeiro elo de Acid Storm com Belo Horizonte, que tinha uma cena metaleira forte na época.

O primeiro disco, um EP intitulado “Why? Dirty War”, de 1989, foi gravado no J.G. Estúdios. A explicação tem um nome: Marcos Gauguin. Integrante da banda Sgt. Pepper, cover dos Beatles, ele era o engenheiro de som do estúdio e costumava fazer “milagres” nas gravações.

“Não tínhamos muita grana para várias semanas gravando. Só podíamos dez dias e o Gauguin era o cara que podia fazer o que a gente precisava em pouco tempo de trabalho”, assinala Marcos Vinícius. Uma parceria que continuou no segundo disco, o LP “Biotronic Genesis”, de 1991.

Os mineiros também deram uma contribuição fundamental para a Acid Storm se tornar conhecida no exterior. 

“O Andreas (Kisser, guitarrista do Sepultura) nos ajudou muito. Ele pegou uns cem vinis, pôs embaixo do braço e foi distribuindo na Europa”.

Com a saída de vários integrantes, o grupo se limitou a fazer algumas demos e pouco depois se desintegrou. Marcos Vinícius veio para Belo Horizonte, para ficar mais próximo do pai doente, e se desligou da música. Foi supervisor de call center e hoje é motorista de aplicativo.

“Gosto da cidade, que é muito bonita, e fui ficando. Meu sonho agora é ser professor de História, uma área de que gosto muito. E também voltar a, quem sabe, tocar guitarra”, anseia o motorista, que tem mais de 6 mil viagens na Uber.

Ouça o disco "Biotronic Genesis":




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