Dona de um dos bordões mais famosos na internet, a youtuber mineira Luísa Marilac, musa dos "bons drinques", está lançando a sua biografia, produzida juntamente com a jornalista Nana Queiroz, intitulada: "Eu, travesti". A história é um retrato da vida de Luísa, que saiu de Além Paraíba, na Zona da Mata mineira, aos 15 anos, para morar em São Paulo, onde quase foi assassinada a facadas e acabou se mudando, antes dos 20, para a Europa. 

Momentos marcantes da vida de Luísa são narrados no livro, como o período em que morou na Europa, o "affair" com um jogador de futebol famoso internacionalmente, sua vida no Brasil e o preconceito que sofrem as mulheres transexuais e travestis. O livro "Eu, travesti: Memórias de Luísa Marilac", que mal acabou de sair do forno, já é um dos mais vendidos na Amazon, ainda na pré-venda, e já está esgotado no site e nas lojas físicas do país. "Mas já estão sendo repostos", tranquiliza a youtuber. 

Quando o Brasil conheceu Luísa Marilac, ela estava na piscininha de uma cobertura na Espanha tomando seus bons drinks, em 2010. "E teve boatos que eu ainda estava na pior. Se isso é estar na pior, porraaam, o que que quer dizer tá bem, né?", ironizava, enquanto mergulhava na água ao sol do verão europeu. O vídeo que, rapidamente viralizou há quase uma década, se tornou um dos primeiros memes do país e é lembrado até hoje. Reveja, abaixo: 

O livro será lançado oficialmente neste domingo (19), em São Paulo, onde Luísa reside atualmente. Somente depois serão definidas as datas para lançamento em outras capitais, como Belo Horizonte. 

A reportagem do Hoje em Dia (HD) conversou com Luísa Marilac (LM) para saber sobre o seu livro e sua vida:

HD: Você pretende voltar à sua cidade natal para lançar seu livro?

LM: Já recebi o convite, mas tenho muito medo de voltar lá. Ainda tenho família na cidade, que eu amo, mas no livro eu conto tudo sem segredos, eu me exponho e falo sobre a minha vida na cidade também. Claro que eu omiti nomes porque não quero processos, mas está tudo lá. E não me arrependo, a verdade tem que ser dita, porque as pessoas nos ignoram a vida toda e eu quero construir com este livro, um legado para as próximas gerações de travestis e mulheres transexuais. 

HD: Foi em Além Paraíba que você entendeu que era uma mulher?

LM: Eu sempre me entendi como mulher, eu sabia que estava no corpo errado desde que me entendo por gente. Na infância, quando minha mãe saía e eu passava os batons dela e ficava dançando "Rainha da Sucata", eu já era uma travesti. Mas na minha cidade não tinha muitas travestis, eu me lembro de uma, mas que tinha os traços e os modos muitos masculinos e por isso não era uma referência para mim. A minha referência e inspiração sempre foi a mulher.   

HD: Porque você decidiu sair do Brasil?

LM: Eu tinha acabado de chegar de Além Paraíba em São Paulo e estava em um bar, com uns amigos, quando senti minhas costas queimarem. Um rapaz tinha me esfaqueado, fiquei dois dias em coma, quase morri. Na época não existia muita informação sobre travestis, sobre trans, não tinha internet e não existia nem mesmo a legislação falha que a gente tem hoje. Então, isso afetou muito a minha cabeça. E eu passei a sentir que o aquário estava ficando pequeno demais pro peixe.    

HD: Além de tomar bons drinques na piscina, como era a sua vida na Europa?

LM: Eu me prostituía na Europa porque nunca tive opção. E não era bom, as pessoas não entendem que é muito diferente você gostar de sexo e você ter que sair com quem te paga. Por isso, na primeira oportunidade que eu tive lá eu arrumei um emprego, ganhando pouco e limpando puteiros, mas eu preferia.   

HD: A expectativa de vida de uma travesti no Brasil é de 35 anos. Você se sente uma sobrevivente?

LM: Eu tenho 41 anos. Eu sou uma sobrevivente, mas enterrei muita gente. Esses dias estava até discutindo com algumas pessoas que me marcam nas redes sociais em imagens de violência contra travestis, de corpos esquartejados, violentados, para eu fazer alguma coisa, mas eu já luto muito pelos nossos direitos. E esse tipo de imagem não me faz bem, porque me faz retornar ao passado. Eu já vi muitas amigas morrerem, eu já vi pessoalmente muitos corpos de travestis daquele jeito, eu já tive que reconhecer muitos corpos de amigas, de pessoas queridas na beira de estrada. Então, eu já tenho meus próprios fantasmas. Quero ver imagens das meninas vivas, não mortas.   

HD: O que o vídeo que você gravou em 2010 te trouxe? Você gostou da repercussão?

LM: Este vídeo me serviu de experiência com meus cinco minutos de fama, e para eu aprender a não me iludir mais, sempre ter o pé no chão, porque no fim das contas, ajuda mesmo é muito difícil de ter. Mas agora com o livro eu espero ganhar dinheiro, claro, inclusive já é o livro mais vendido na pré-venda! E também espero contribuir para desconstruir esse olhar que as pessoas têm sobre nós. 

HD: Como é este olhar? Você ainda sofre muito preconceito?

LM: Eu sou uma pessoa muito mais forte hoje, mas sou cheia de tocs e traumas. Por exemplo, uma vez eu entrei em um banheiro feminino e o dono do bar entrou lá e me chutou para fora. Então, entrar no banheiro hoje ainda é uma questão, me faz reviver esse trauma. Acredito que hoje, que temos internet, que estamos mais expostos, as pessoas escondem mais esse preconceito, ele fica camuflado, mas sempre tem.  

HD: Quais as suas inspirações e referências hoje?

LM: Eu sou uma mulher que me inspiro na vida e na figura feminina. A mulher sempre foi a minha maior fonte de inspiração porque é guerreira, lutadora, nunca foi o sexo frágil. Só pra te dar um exemplo, pense, quando um homem fica gripado dentro de casa, ninguém merece, parece que vai morrer, mas quando é a mulher que fica gripada ela continua fazendo tudo, cuidando dos filhos, da casa, trabalhando. Infelizmente, acho que algumas mulheres são muito desunidas entre elas mesmas, algumas nem reconhecem nós travestis e trans como mulheres, não gostam da gente. Mal sabem elas que para mim elas são o maior exemplo, a maior inspiração.