Muitas das exposições com maior frequência de público, na atualidade, têm estreita relação com as possibilidades de selfies. Em BH, as mostras dedicadas a Erwin Wun e Escher foram campeãs nas redes sociais por permitirem o protagonismo do próprio espectador na interação com as obras. Com abertura nesta sexta-feira, no CCBB, “Construções Sensíveis” também tem um pé nesta interatividade.
 
Focada na arte abstrata da América Latina, a partir da coleção Ella Fontanals-Cisneros, sediada em Miami, a exposição vislumbra trabalhos que, no Brasil e em países vizinhos, passaram a trilhar esse caminho de mão dupla. “São obras que começaram a pensar, em décadas passadas, na participação do público, como protagonista”, observa a cubana Ania Rodríguez, curadora da mostra ao lado de Rodolfo de Athayde.
 
Assim, é abolida a noção do artista como finalizador da obra, restando ao público apenas a contemplação. “Os espectadores são partícipes, manipulando as peças. É uma ideia que está presente nas obras de Lygia Clarke e de Helio Oiticica. Nelas, é o olho do público que ativa os conteúdos”, diz a curadora, que salienta a variedade de suportes–das pinturas e esculturas a instalações e vídeos.
 
Ao conhecer o acervo da Cisneros-Fontanals, Ania percebeu uma quantidade expressiva de obras que lidavam com a arte geométrica na América Latina, muitas delas integrantes dos movimentos iniciadores. Assim, um dos nortes da mostra não é apenas apontar as referências europeias que muitos artistas latino-americanos beberam, mas também falar do contexto regional, estabelecendo diálogos inusitados.
 
Oportunidade
Ania sublinha que, com um trabalho voltado ao incentivo a jovens artistas, a partir de um sistema de bolsas, a Fundação acaba não conseguindo explorar a riqueza de seu acervo, resultado da reunião de mais de 2,6 mil obras, produzidas entre 1920 e 1982. “Fica o desejo e a necessidade da própria colecionadora fazer conhecê-lo. Nossa intenção é justamente tentar revelar o que está guardado num edifício enorme e que ninguém vê”.
 
“Construções Sutis” também presta homenagem à mostra “Arte Agora III, América Latina: Geometria sensível”, realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 1978, e que teve suas obras consumidas por um incêndio. “Vários artistas presentes naquela exposição estão presentes aqui, como forma de restabelecer uma linha de pensamento. À luz de hoje, traz um diálogo muito interessante com a arte mais contemporânea”, registra.