Na semana dedicada à padroeira do Brasil, cinemas exibem remake sobre milagre de Fátima

Paulo Henrique Silva
phenrique@hojeemdia.com.br
10/10/2021 às 11:30.
Atualizado em 05/12/2021 às 06:02
 (GALERIA DISTRIBUIDORA/DIVULGAÇÃO)

(GALERIA DISTRIBUIDORA/DIVULGAÇÃO)

Durante muitos anos, um dos campeões de exibição na “Sessão da Tarde” em datas religiosas, especialmente em 12 de outubro, quando cristãos católicos celebram o Dia de Nossa Senhora Aparecida, mostrava a história das três crianças portuguesas que afirmaram ter visto a Virgem Maria, em 1917. A história precisou esperar quase 70 anos para ganhar uma nova superprodução para o cinema.

Apesar de repetir a mesma narrativa, com a inclusão apenas de algumas passagens em 1989, quando a irmã Lúcia (uma das crianças) é entrevistada por um pesquisador americano, o filme “Fátima – A História de um Milagre”, já em cartaz nos cinemas, tem uma abordagem muito diferente da que foi apresentada em “O Milagre de Fátima”, lançado em 1952. 

O clássico é de uma época em que se produzia adaptações bíblicas em grande quantidade. E, independentemente da qualidade, todos tinham uma percepção semelhante na forma de evidenciar a fé católica como algo indiscutível, forte, de grande beleza e, nas telas de cinema, de caráter épico, envolvidos em dramas de muita carga sentimental.

Tais elementos são desidratados na obra mais recente, assinada por Marco Pontecorvo e que tem a brasileira Sonia Braga no elenco. Busca-se um tratamento mais realista, acentuando-se o peso da dor pela perda de milhares de portugueses na Primeira Guerra. Essa opção parece equivocada, já que o filme não oferece nada de novo para se sustentar.

Nos momentos mais dramáticos, quando há aparição de Nossa Senhora na cova da Iria, em Fátima, o tom de enlevo é substituído por imagens feias e dúbias, como se quisesse colocar um pouco de dúvida no espectador sobre os possíveis milagres descritos nas aparições. A própria santa surge desglamurizada, como uma jovem vestida de branco.

O ceticismo é evidenciado no pesquisador interpretado por Harvey Keitel, cujas cenas ao lado de Sonia Braga pouco trazem de relevância, na verdade. A narrativa localizada no passado funciona muito bem sem os questionamentos superficiais feitos pelo “antagonista” do presente, perdendo-se a oportunidade de traçar um diálogo com o mundo atual.

Basta lembrar que, em 1989, houve a queda do muro do Berlim, representativa do debacle da União Soviética. Um dos três segredos de Fátima era justamente um alerta para que a então Rússia se convertesse para evitar tragédias futuras. Mas nada disso é mencionado, muito menos o atentado ao Papa João Paulo II, outra das revelações.

Esse constante “pé atrás” não tem relação com trabalhos recentes baseados na Bíblia e que objetivam novos olhares sobre os episódios, como um papel mais determinante de Maria Madalena junto a Jesus Cristo, eclipsado pela Igreja. Desta forma, “Fátima” erra ao perder de vista a força daqueles acontecimentos e também por dispensar qualquer contato com as discussões de hoje.N/A / N/A

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