Amor heteronormativo, homoafetivo, monogâmi-co, poligâmico e até o sentimento maternal. “A gente fala sobre o amor em suas diferentes formas”, avisa a percussionista Paloma Alves, explicando a espinha dorsal de “A Cada Esquina uma Breve História Sobre Formas de Amar”, que marca a estreia no mercado fonográfico de Teresa, banda mineira de samba formada por mulheres lésbicas.
 
O fato de o disco estar sendo lançado hoje, véspera do Dia dos Namorados, não é por acaso. “Conseguimos unir o útil ao agradável. Com um CD recheado de músicas que falam de amor, fizemos de tudo para deixá-lo pronto agora, devido a este gancho. Fomos abençoadas por criar um trabalho com tanto amor, exatamente o que mais estamos precisando nestes tempos (de pandemia)”, registra.
 
O álbum surge 11 anos após a criação da banda, numa caminhada de superação de estigmas pessoais e do próprio gênero, já que o samba ainda é um universo de predominância masculina. “Estamos em pleno 2021 e, ainda assim, a gente não vê a presença de mulheres na s rodas de samba. Elas podem estar cantando e estarem ali em volta, mas sem tocar algum instrumento. É uma questão que a gente traz para o CD”.
 
Nos créditos, só há um nome que não seja de mulher – o de Sérgio Villard, responsável pelo estúdio onde foi feita a gravação. “As pessoas que convidamos a participar são todas mulheres. Isso é muito importante para nós, ao alcançar este lugar de mulheres lésbicas fazendo samba e pagode numa cidade como BH, que, apesar de ter uma história muito bonita com o samba, ainda nos dá pouca visibilidade e espaço”.
 
A escolha de Teresa para batizar o grupo tem a ver com esta proposta feminista. Na gíria dos presídios brasileiros, a palavra (com a letra Z no lugar do S) carrega o significado de uma corda improvisada, feita de vários panos e usada para fugas. “Dentro do Teresa, a gente entende que cada uma é um pedaço de pano, com todas fazendo parte desta corda”, ressalta a percussionista, que está na banda há seis anos.
 
O nome também tem outra explicação, mais geográfica, já que o grupo começou tocando no bairro de Santa Tereza, na região leste da capital mineira. “Como tinha começado sem nome, muita gente perguntava sobre a banda que ‘cantava nos bares de Santa Tereza’. A Fernanda Régila fundou o grupo com outras duas amigas, que já não estão mais com a gente, de uma forma descompromissada, porque gostavam de tocar samba”.
 
O CD chega num momento de maturidade do Teresa, que não tem ambições modestas. “Queremos alcançar o mundo”, afirma Paloma. Mas ele só foi possível devido à realização da Lei Aldir Blanc, programa de ação emergencial para a cultura durante a pandemia. “Nós somos uma banda independente. Não iríamos ter grana para fazer um CD desta magnitude, neste formato de 14 músicas, com uma variedade incrível de sonoridades e participações”, admite.
 
‘Trazemos para o CD a realidade das mulheres diversas’
 
Prestes a completar 11 anos de estrada em agosto, o grupo Teresa levou quase a metade desse tempo para se assumir com uma banda de samba formada por mulheres lésbicas. As integrantes tinham receio que pudessem ser discriminadas, perdendo espaço no cenário artístico de Belo Horizonte.
 
“A gente não levantava essa bandeira, por medo de não acessar certos locais. Entendíamos que, até aquele momento, ainda não era o momento certo. Isso mudou recentemente, quando passamos a ter a noção do quanto era importante colocarmos nossa cara de verdade”, registra Paloma Alves.
 
Com a nova posição, o Teresa passou a “alcançar lugares que não tinham conquistado antes”, como a Parada LGBTQIA+ em 2019. “Se o lugar não irá abrir espaço porque nós somos lésbicas, a gente realmente não tem que estar lá. Tem que estar no lugar que irá aceitar a gente como é, consumindo o nosso conteúdo independentemente do que a gente traga de bagagem”, assinala.
 
Ela destaca que o grupo fala muito do amor próprio em “A Cada Esquina uma Breve História Sobre Formas de Amar”, mas sem se voltar para um determinado nicho. “Não é só o amor próprio da mulher lésbica. Entra aí também a mulher cis, a trans... Tentamos trazer no disco a realidade dessas mulheres diversas”, salienta Paloma, que se assumiu como lésbica aos 17 anos.
 
Após disponibilizar o primeiro álbum nas principais plataformas digitais, o grupo pretendo continuar fazendo a dobradinha entre música autoral e militância. “Estamos fazendo samba e pagode e estamos militando por causas que são muito importantes. Com muito respeito a outras vivências, a gente está aqui para ocupar mesmo. Não vamos arredar pé mais não”, garante.