Ela é do povo, da família, do palco, da TV, do rádio, de Minas Gerais. Agora, ela também é a história da biografia “Nany People: Ser Mulher Não é Para Qualquer Um – Minhas Verdades” (Editora Planeta, 207 páginas, R$ 34,90). A multiartista lança o livro nesta semana quando completa 50 anos de vida. A data foi celebrada na última quarta-feira. E, na quinta, Nany fez o pré-lançamento da biografia em Poços de Caldas. “Tudo o que faço, lanço primeiro em Poços”, frisa. Na próxima segunda-feira, ela faz o lançamento nacional em São Paulo, onde está radicada desde os 20 anos e onde consolidou a carreira e a autenticidade “trans”.
 
Como você vê a movimentação de apoio à aprovação do casamento homossexual nos Estados Unidos?
 
Fez-se um alarde tão grande para a aprovação desta questão lá, e a nossa, que foi aprovada em 2011? Ninguém falou quase nada. Eu não me deixo levar por esses modismos. Engraçado é que eu vi gente colocando aquela foto, como se fosse uma televisão colorida do meu tempo de criança, mas que tem um tio que é gay e não aceita a homossexualidade dele. Querem ser moderninhos, mas na prática…
 
No livro, você mostra sua mãe como uma pessoa incrível...
 
A minha mãe era a mãe do tempo dela, meu bem. Não me perdi de mim mesma devido à ela.
 
Como é forte a cena entre sua mãe e seu pai, que abre o livro... (Cansada das agressões do marido com o filho ainda criança, a mãe virou a toalha da mesa com todo jantar sobre o pai, que havia mandado o filho “falar como homem”.)
 
Além de bofetada, teve um texto horroroso. Foi aí que ela se revoltou. Ele me arrancou um dente. Ela se levantou de um jeito que o encosto da cadeira quebrou. Ela virou uma leoa. E disse que nunca mais meu pai faria aquilo. Anos depois ela dizia: “O que salvou meu casamento foram meus filhos”.
 
Você conseguiu perdoar seu pai?
 
A gente perdoa, mas não esquece. Quando ele saiu de casa, eu tinha 13 anos, quando ele voltou, eu tinha 30. Depois de anos, quando o acolhi em casa, ele estava doente. Então, mudei toda a minha vida aqui em São Paulo para recebê-lo. E, mais uma vez, ele me deu uma rasteira. Ele chegou a ligar para uma cunhada minha, que não o aceitava, e dizia que estava vivendo em uma “gaiola de ouro”.
 
Com qual frequência você vem para Minas?
 
Vou muito. Eu saí de Minas, mas Minas não saiu de mim. (Nany nasceu como Jorge Demétrio Cunha Santos, em Machado, foi criada em Serrania e em Poços de Caldas, no Sul de Minas) Tenho prima em Serrania, amigos em Poços de Caldas, a gente se fala muito.
 
Cinderela é personagem que a inspira. Hoje, aos 50 anos, quem você gostaria que achasse o seu “sapatinho de cristal”?
 
(Às gargalhadas) Eu sou muito fiel até a quem eu desejo, entendeu? Então, se o Raí achasse o meu sapatinho de cristal, eu seria muito feliz. (Diz sobre o ex-jogador de futebol.)
 
(Risos) Por que o Raí?
 
É paixão antiga. E ele sabe disso! Eu já gravei com ele. Tenho um cachorro que se chama Raí, inclusive.
 
(Risos) Raí já é avô, Nany!
 
Já é avô! E eu também sou avó! Aos 50, a gente já é avó. A verdade é que como eu tenho muito sapato, nem preciso achar sapato, não, minha filha! Se eu achar a fivela, já ‘tá’ bom demais.
 
(Risos) Até perdi o rumo do que ia lhe perguntar…
 
(Risos) Hoje a gente se diverte com o que tem... Porque quando a gente é novinha, é muito exigente, pretensiosa… É como dizia minha tia-avó, a tia Maria José: “A juventude é a ignorância atrevida”. Os antigos falavam isso.
 
E ela está no livro...
 
Sim, está. Ela não pôde se casar com o grande amor da vida dela. Se casou aos 60, depois que o pai dela morreu. Eu brincava com as anáguas dela. (Risos)
 
Ela não xingava?
 
Imagina?! Ela era meu porto seguro. Tinha ainda uma outra tia, que morreu aos 92 anos de idade, que depois que eu virei “trans”, ela me dava muito corte de vestido no Natal. Na mesa-de-centro da casa dela tinha uma foto do Papa e uma foto minha, de Nany People. Ela me adorava.
 
Que Nany os leitores vão encontrar no livro?
 
Quando o Flavio (Queiroz, jornalista autor da biografia) teve a ideia de fazer o livro, há dois anos, as pessoas poderiam achar uma Nany totalmente underground, com chicotinho na mão. Mas existe a Nany People e a Nany. Não que eu seja santa... Eu usei a noite, mas a noite não me usou. Achei pertinente lançar este livro para as pessoas verem que, não importa o olhar que elas tenham em você, se você tem segurança do olhar que você tem de si mesma.
 
Hoje, “paga-se um preço” por deixar a homossexualidade às claras?
 
Está tendo um preço. As pessoas têm é que tomar cuidado para não virarem bucha de canhão na mão dos outros. Tem muito movimento vendido e blefado.
 
“As pessoas fazem com a gente aquilo que a gente deixa”. Parece que a frase da sua mãe serve de base para tudo o que você fala.
 
Na minha vida e em tudo! “Não seja a fossa do mundo”, dizia. Ela morreu aos 77 anos, nos meus braços. Ela era a minha “ídola”. E ela dizia mais: “Você vai ser feliz no seu teatro. O teatro vai te amparar”. Cantei no programa do Chacrinha aos 8 anos. Faço teatro desde os 10. Em Poços, fiz toda a obra da Maria Clara Machado. Depois que saí, perdi a conta do número de peças. Então digo que estou fazendo 40 anos de carreira e 50 anos de idade.
 
Ou seja, salva pela força do trabalho.
 
Exatamente, o trabalho!
 
E você não para mesmo, hein?
 
Não paro. Estava envolvida, até semana passada, com a gravação de “Partiu Shopping” (série de humor no canal a cabo Multishow). Agora, vou substituir uma atriz numa peça daqui de São Paulo chamada “Caros Ouvintes”. Esta peça estará em BH, em agosto. Nela, vou fazer uma senhora reacionária. A ironia disso é que, na minha condição, vou fazer um texto que caberia na boca do Bolsonaro.