É uma São Paulo muito diferente que “Cidade Pássaro” mostra. O filme, que será disponibilizado a partir de hoje no cardápio da Netflix, traz imagens e ângulos pouco explorados no cinema, destacando o que está por trás dos principais cartões-postais do coração financeiro do país. 

Não se trata, porém, de uma crítica social, muito menos de exibir a situação precária dos imigrantes no Brasil. Apesar de trazer três nigerianos como protagonistas e ter a língua africana, além do inglês, como idioma predominante, o longa de Matias Mariani aponta para uma ausência de identidade.

Lembra alguns filmes de Wim Wenders, como “O Céu de Lisboa” e “Até o Fim do Mundo”, sobre uma certa transnacionalização, em que São Paulo é uma cidade como tantas outras metrópoles do planeta, que se apropria das diversas origens e culturas, estabelecendo um grande mosaico.

A capital paulista é o lugar de “perda”, no sentido de perder-se propositadamente em meio àquele frenesi, com a possibilidade de se reinventar completamente. Amadi chega à cidade para descobrir o paradeiro de seu irmão, Ikenna, que deixou noiva na Nigéria e perdeu contato com familiares.

Sem falar português, Amadi assume uma missão detetivesca, desbravando São Paulo pelos lugares por onde supostamente passou Ikenna. Encontra uma cidade multicultural, em que se nota uma valorização ao que é diferente. Os imigrantes não aparecem como marginalizados, mas sim como paisagem humana do que é a cidade.

De Wenders, Mariani absorve a ideia de fronteira como uma aventura, uma descoberta e mesmo pertencimento. Não por acaso, todos os estrangeiros que surgem no filme estão estabelecidos e não demonstram qualquer insatisfação pela morada que escolheram.

Mariani evidencia muito respeito e admiração por estes imigrantes, especialmente na maneira como retrata a tradição oral por intermédio de Amadi, um charmoso contador de histórias que se vê numa incessante busca por respostas do paradeiro de Ikenna.

Logo percebe que o irmão criou uma narrativa fantasiosa como professor de Matemática de uma universidade. O contador de histórias se vê envolvido numa trama ainda maior e cada vez mais enigmática, que se revelará mais sobre Amadi à medida que o tempo passa.

Amadi é como o técnico de som alemão que viaja para Portugal para participar de um filme e não encontra o diretor. A procura é também o combustível da narrativa. A cidade – Lisboa no filme de Wenders – vira um personagem à parte. Não há descrença, no entanto. 

Para dar sustentação a este enredo, o filme encontra um elenco muito coeso – entre eles está o mineiro Paulo André, do grupo Galpão. Ator nigeriano, OC Ukeje nos conduz com leveza e curiosidade pela “outra” São Paulo. E o trabalho de fotografia é exuberante, na escolha e na forma como ilumina certos espaços.