O cineasta americano Greg Barker não tem dúvidas de que o embaixador brasileiro Sergio Vieira de Mello, se ainda fosse vivo, poderia estar à frente de uma resposta mais ampla para o problema social e econômico criado com a pandemia de coronavírus.

Alto comissário da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Direitos Humanos, Mello seria hoje, segundo analistas, um dos possíveis nomes à frente da entidade, após evidenciar habilidade para arbitrar conflitos, como no Timor Leste.

É esse personagem, carismático e humanista, que surge no filme “Sergio”, que estará disponível a partir desta sexta-feira na Netflix, com o ator brasileiro Wagner Moura na pele do diplomata.

Morto num atentando à sede da ONU em Bagdá, em 2003, quando  tentava fazer a transição do domínio militar americano para um governo civil, Mello tem sua história contada a partir  justamente deste ponto, costurando a narrativa com vários flashbacks.

Barker, que havia assinado um documentário sobre o diplomata em 2009, evitou fazer um thriller político, embora tivesse manancial para isso, como os constantes embates com o governo americano, que exageravam no uso do violência.

Nas mãos de um diretor de câmera “nervosa”, como Paul Grengrass (“Jason Bourne”) ou Adam McKay (“A Grande Jogada”), certamente agradaria um público mais amplo, carente de ação e de intrigas de bastidores.

Por mais que o personagem tenha uma história atraente, ela acaba se perdendo diante de algumas opções do roteiro, que tenta vislumbrar um herói, na forma ousada como age politicamente, mas sem dar-lhe a amplitude dramatúrgica necessária.

Ao abrir espaço demasiado ao romance de Mello com a argentina Carolina Larriera (a cubana Ana de Armas), mesclando o poder de persuasão do diplomata com um chamariz sedutor, o que empobrece muito a ação altruísta dele.

A trama também se ressente em se aprofundar no personagem, em descobrir as origens de suas motivações – o personagem parece não ter raiz, embora exiba uma carreira internacional, faltando apontar detalhes sobre a formação moral dele.

Apesar destes problemas, o trabalho do elenco (em especial, Wagner Moura, muito à vontade no papel) é louvável, assim como o fato de servir de introdução a um personagem hoje pouco conhecido e que faz falta num cenário como o atual.