É preciso um pouco de paciência: a princípio, o espectador não deverá nutrir grande simpatia por Elliot Udo, músico renomado e dono de clube noturno recém-aberto em Paris que protagoniza a minissérie “The Eddy”, um dos principais lançamentos de maio no cardápio da Netflix.

 

A dificuldade de adesão imediata ao personagem faz parte da construção narrativa dessa produção assinada por Damien Chazelle, um ex-baterista que revitalizou o gênero musical a partir de “Whiplash: Em Busca da Perfeição” (2014) e de “La La Land – Cantando Estações” (2016).

 

A minissérie de oito episódios, toda ela filmada em Paris com um elenco internacional, é quase uma continuação de “La La Land”, ao acompanhar um pianista que resolve abrir um clube de jazz. A semelhança só fica aí, já que abordagem está longe da idealização romântica do longa.

 

“The Eddy” é mais cru, com uma linguagem que remete ao documentário e câmera na mão a maior parte do tempo. Chazelle se aproxima de “Whiplash” na habilidade como constrói situações de grande tensão dramática em meio a envolventes apresentações musicais.

 

Daí a importância de um personagem como Udo (André Holland), que exibe uma personalidade mais reticente e fugidia, sem saber como lidar com o assassinato de seu sócio (Tahar Rahim) num momento em que tenta formatar uma banda e recebe a problemática filha.

 

As poucas informações sobre ele vem de fora, dos personagens que o rodeiam. Essa é uma característica importante de “The Eddy” que, apesar de aparentar algo meio solto, nos leva a gradualmente compreender os traumas e as preocupações do protagonista.

 

Embora cada episódio seja dedicado, como está expresso nos títulos, a um personagem diferente, o roteiro está mais preocupado em fornecer  pedacinhos sobre o passado de Udo. Quando retrata o violoncelista Jude, por exemplo,  o que se ressalta é o lado fraternal dele.

 

Por vezes essa costura não é bem feita, como no próprio episódio sobre Jude, em que os elementos ali postos pouco contribuem para a narrativa, mas em boa parte deles o que se extrai é a ideia de um grupo que deve aos esforços de Udo a  oportunidade de ganhar visibilidade.

 

O uso da música ao vivo, durante os extenuantes ensaios e as apresentações noturnas no clube, oferece uma riqueza que só um diretor como Chazelle seria capaz, entrando na trama de forma orgânica, dialogando com aquela realidade ao mesmo tempo dura e charmosa.

 

O fato de convidar atores com experiência musical também foi importante para dar maior autenticidade – até porque, como se utiliza muito plano-sequência, não seria fácil “dublar” as cenas. Neste campo, quem se destaca é a polonesa Joanna Kulig (de “Guerra Fria”), a voz e o termômetro do grupo.