Localizar a ação da série “Irmandade” (produção brasileira da Netflix que estará disponível no site de streaming a partir desta sexta) na metade da década de 1990 foi, principalmente, um artifício narrativo, vez que na época não havia tantos aparelhos celulares, com as mulheres ainda desempenhando importante função na relação entre o exterior e o interior dos presídios.
 
Mas quem acompanhar os oito episódios da série, realizada pela produtora paulista O2 (de “Cidade de Deus”), verá que esta volta em mais de duas décadas na história do país tem paralelos com o momento atual do Brasil. “Fomos heróis ao termos sobrevivido aos anos 90. Foi muita loucura! E quando se olha para trás, percebemos que algumas coisas estão voltando”, opina o ator pernambucano Pedro Wagner.
 
irmandade

Naruna Costa (à esquerda) vive advogada que acaba se envolvendo no mundo do crime ao descobrir o paradeiro do irmão, Edson (Seu Jorge)

 
No papel do antagonista Carniça, que lidera a facção criminosa do título, ao lado de Edson (Seu Jorge), Wagner destaca que “Irmandade” é um thriller de entretenimento fundamentalmente, mas que, ao exibir personagens complexos no retrato do sistema carcerário brasileiro, pode-se ir mais a fundo em algumas questões. “É um trabalho de gênero, mas quando é possível dar uma flertada com a obra de arte, fica mais legal”, sublinha.
 
“A gente conversava muito durante a produção, sobre a sensação de estar sempre caindo no mesmo lugar. Mas há um senso de responsabilidade com estas discussões, de não serem compreendidas de forma leviana, dando liberdade para o espectador tirar suas próprias conclusões”, destaca Wagner, que tem essa visão compartilhada por Lee Taylor, intérprete de Ivan, outro integrante da facção. 
 
“A série é bem assertiva ao localizar a história na década de 1990, principalmente por alguns acontecimentos trágicos, como o massacre de dezenas de detentos no Carandiru (presídio paulistano)”, registra Taylor. “E hoje essa violência se repete nas várias rebeliões nas prisões, com coisas atrozes acontecendo lá. Como ficção, a série traz temas relevantes para se discutir, mostrando um contexto para ser lembrado, revisado e atualizado”. 
 
Danilo Grangheia, que assume o papel de um delegado com regras próprias, afirma que esta volta no tempo permite entender “onde a gente está hoje”. O ator enxerga “lá atrás um sintoma de algo que não deu certo e que continua até hoje”, em torno de um Estado que não está levando em conta os marginalizados. “É um descaso total, como se não fizessem parte da integração dessa sociedade”.
 
Pedro Morelli, diretor-geral de “Irmandade”, diz que é muito importante que esse debate aconteça numa plataforma global, como a Netflix. “Abrange todas as linhas de pensamento, da direita à esquerda. Para nós, é um grande privilégio estarmos nos comunicando com todos os lados, uma coisa rara em tempos de bipolaridade extrema”, pondera.