Segundos antes de “Perdas e Ganhos” começar, é a voz de Paulo Goulart que alerta aos espectadores para desligarem os celulares, desejando, ao final, um bom espetáculo. Mensagem que, a cada apresentação, serve de estímulo para Nicette Bruno, única atriz em cena e companheira do ator – falecido em março do ano passado – por 62 anos.

Foi um presente da filha Beth Goulart, diretora da peça baseada na obra homônima de Lya Luft, em cartaz nesta sexta-feira (22) e neste sábado (23) no Teatro Bradesco. “Ela me mostrou a gravação (feita para “Simplesmente Eu, Clarice Lispector”) no último ensaio geral. É uma alegria ele continuar comigo. É como se fizesse parte do espetáculo”, observa Nicette.

A “participação” de Paulo está também no texto, quando a atriz, de 82 anos fala das angústias e dos prazeres da vida, especialmente quando diz que “o casal mais feliz haveria de ser aquele que não desiste de correr atrás do sonho de que, apesar dos pesares, a gente a cada dia se olharia como da primeira vez, se enxergaria – e se escolheria novamente”.

Superação

Nicette confessa que, ali, faz uma homenagem explícita ao marido. Uma imagem projetada exibe a atriz ao piano. O que poucos sabem é que a música é de sua autoria. “Fiz para o Paulo”, salientou Nicette, ao Hoje em Dia, na última quarta-feira, após gravar cenas da novela “I Love Paraisópolis”.

É a primeira vez que Nicette trabalha sob a direção da filha Beth, parceria que a ajudou a vencer a dor pela perda de Paulo. “Não foi fácil superar e dominar a dor e a emoção sobre o palco, para que pudesse ter o distanciamento necessário para dizer esse texto. Fomos nos dando muita força, com o texto ajudando muito”. A montagem de “Perdas e Ganhos” é uma forma de compartilhar com o público o que se passou com a família nos últimos 14 meses. “O palco sempre teve importância grande na minha vida artística e pessoal. Estreei no palco, casei no palco, vi meus filhos nascerem profissionalmente no palco e me despedi do Paulo no Theatro Municipal, onde foi o velório”.

Eterno aprendizado

Nicette já tinha lido o best seller de Lya Luft antes de ser escalada para a adaptação, destacando que uma das mensagens do livro (e da peça) é sempre manter a esperança para superar os momentos de tristeza. “Muitas vezes, ficamos tão presos a essas perdas que esquecemos que, a partir delas, aprendemos e descobrimos a nossa essência”.

Nicette pondera que a perda não se dá só com a morte: “Perdemos o tempo todo – emprego, saúde, dinheiro, juventude. E ganhamos a consciência de que a vida é um eterno aprendizado. Se pararmos para refletir sobre isso, acho que viveremos de uma maneira melhor”.

Uma das frases que ela mais gosta na peça é a que diz: “A infância é o chão sobre o qual caminharemos o resto de nossos dias”. Para a veterana atriz, esses primeiros passos se refletem no restante da existência. A cada filho que teve (além de Beth, Bárbara e Paulo Goulart Filho), Nicette parou de trabalhar por um ano, dedicando-se exclusivamente à maternidade.

“O primeiro ano de vida é muito importante. O colo da mãe dá serenidade. Talvez por isso meus filhos nunca tenham passado por problemas emocionais”, afirma ela, que, neste sábado (23), aliás, estará ao lado da filha Beth, para um bate-papo (gratuito) com o público, às 16h, no Villa Café do Centro Cultural do Minas Tênis Clube.

“Perdas e Ganhos” – Nesta sexta-feira (22), 21h, e neste sábado (23), 19h. Teatro Bradesco (Rua da Bahia, 2.244). Entrada: R$ 80 e R$ 40 (meia). Bate-papo (gratuito) neste sábado (23), às 16h .

“A peça une a linguagem moderna do audiovisual, com a projeção de imagens, e a coisa mais antiga do teatro, que é ter uma pessoa sozinha sobre o palco”