Pelo menos na tevê, ciência nunca foi levada muito a sério. Até surgir “The Big Bang Theory”, que está indo para a 11ª temporada já com anúncio de mais dois anos no ar como um dos programas mais cool da tela. Mais que isso: é o seriado mais assistido da televisão norte-americana, com média de 20 milhões de espectadores por semana. É como se toda Minas Gerais visse o programa sobre quatro prodígios da ciência, suas teorias e dificuldades de convívio social.

“É uma ciência sem ficção científica”, define José Andrade Figueiredo, professor do departamento de Física da UFMG, para quem a série americana ajudou a popularizar a ciência, antes atrelada a filmes e seriados com grandes naves espaciais, seres de outro planeta e futuro distópico.

“Quando os colegas de minhas filhas perguntavam em que eu trabalhava e elas diziam Física, ninguém sabia o que era. Com a série, todos agora sabem as apreensões e desafios, sem precisar exibir um universo ultra high tech. Elas podem estar num simples café da manhã”. 

Estereótipo

Está certo que Sheldon Cooper e amigos são nerds e pouco sociáveis, mas não há quem não se identifique com situações vividas pela trupe. “É interessante perceber que são jovens, pois cientistas estavam mais vinculados a pessoas velhas”, diz Figueiredo, que acrescenta. “Os principais resultados científicos acontecem quando a pessoa é realmente jovem, no momento em que está mais envolvida com a vida”, observa o físico, citando o caso de Einstein, que tinha 25 anos quando anunciou a Teoria da Relatividade.

Ele explica que todas as equações que aparecerem na lousa em vários episódios são reais – fruto da assessoria do astrônomo americano Alexandre Cherman. “É mais ou menos o ambiente que a academia oferece. Quando Sheldon está parado, sentado e pensando, e alguém fala alguma coisa, ele responde: ‘Estou trabalhando’. Isso é real”.

O sitcom foi renovado por mais duas temporadas, mas antes os cinco protagonistas aceitaram diminuir o salário em US$ 100 mil, cada, para que Melissa Rauch e Mayim Bialik recebessem cachê mais justo. Enquanto Jim Parsons, Johnny Galecki, Kaley Cuoco, Kunal Nayyar e Simon Helberg ganhavam US$ 1 milhão por episódio, ambas recebiam US$ 200 mil. As duas passarão a receber US$ 450 mil por episódio; o restante, US$ 900 mil

Mulheres também
O professor da UFMG também se lembra de uma cena em que o amigo engenheiro de Sheldon, Howard, tenta construir uma privada para os astrônomos da Nasa. “No espaço, tudo flutua. Então ele tem que pensar numa forma de resolver isso. Apesar de engraçado, é uma questão real”, salienta.

O sitcom também conta com duas personagens cientistas. Além da microbiologista Bernardette, a neurocientista Amy (cientista na vida real) o que, segundo Figueiredo, retrata outra realidade atual. “Não é um clube do Bolinha. A presença das mulheres aumentou um pouco em relação à minha época. Hoje até existe prêmio da L’Oreal voltado para mulheres cientistas no Brasil”. 

Apesar de cuidados na abordagem científica, série quer fazer rir

À frente do Centro de Estudos Astronômicos de Minas Gerais (Acemg), Marcelo Macedo pondera que a balança para o humor pesa muito mais do que qualquer intenção realista de abordagem científica na série americana. “É mais uma gozação, forçando a barra em algumas coisas que até depreciam”, registra.

O astrônomo amador salienta que, como divertimento, “The Big Bang Theory” pode até ser interessante, mas as discussões levam à nada. Ele contesta, por exemplo, a ideia de que todo cientista seja um nerd. “São, na verdade, pessoas normais, que trabalham tanto que ninguém os vê”, pontua.

Para o astrônomo, tanto a TV como o cinema têm realizado muitas vezes um desserviço sobre o universo científico. “Normalmente mostram coisas erradas”, afirma Marcelo. 

Ele põe em xeque produções como “Interestelar” (2014), de Christopher Nolan, elogiada por alguns críticos pelo rigor científico. “É mais um filme que puxa pelo lado emocional”, analisa.

“TBBT” é exibido no canal pago Warner aos domingos, às 22h05, e no SBT, de madrugada. Várias temporadas estão disponíveis em DVD

Cosmos
Uma das poucas exceções seria “Perdido em Marte” (2015), de Ridley Scott, mas que também não escapa ao exagero, especialmente quando o astronauta vivido por Matt Damon consegue resolver todos os problemas, estando sozinho em Marte, após ser deixado para trás por sua equipe.

Marcelo, porém, destaca a nova versão do programa “Cosmos” exibida na TV, pela primeira vez, há três anos. A série é uma atualização do que foi feito pelo famoso astrofísico e cosmólogo Carl Sagan na década de 80. “Ela é bem feita, tem mais recursos que a série original, atualizada com as novidades científicas que ocorreram nesse período”, observa o presidente da Acemg.

Quando foi lançado, em 1980, “Cosmos” foi importante por apresentar a complexa estrutura do universo numa linguagem acessível aos leigos, ganhando importantes prêmios internacionais. Com a morte de Sagan, em 1996, o apresentador da nova série passou a ser Neil DeGrasse Tyson, discípulo do astrofísico.

The Big Bang Theory arte