CURITIBA – Rania Rafei olha intrigada para as imagens da TV que exibem os protestos que vêm tomando as principais capitais brasileiras. Ela é diretora do documentário "74 – A Reconstrução de uma Luta", filme que trata justamente de uma manifestação ocorrida no Líbano, em 1974, contra o aumento de mensalidades nas escolas.

A ebulição das ruas parece acompanhar Rania e servem como resposta à proposta do filme, que discute a falta de conscientização política dos jovens de hoje. No meio da produção, estourou a Primavera Árabe, em 2011. Cenário que se repete agora, ao acompanhar a exibição de "A Reconstrução de uma Luta" no 2º Festival Internacional de Curitiba.

Reencenação

O filme ganhou o principal prêmio do festival, encerrado na noite de sexta. O que chamou a atenção do júri é a mistura de documentário com ficção. Rania reencena, de forma livre, os bastidores da manifestação que levou estudantes a ocuparem por 37 dias a Universidade Americana de Beirute, devido ao aumento em 10% das mensalidades.

"Para interpretar os revolucionários do passado, chamei pessoas que estão envolvidas com o ativismo político de agora. Não queríamos ser fieis aos elementos históricos e chegamos a um terceiro personagem, mistura do que gostariam de ser e do que eram", destaca Rania, que dirigiu o filme ao lado do irmão Raed.

Cansaço

A origem do projeto está numa série de documentários para a TV árabe Al-Jazira, sobre movimentos estudantis. Ela não quis focar apenas o passado, conectando-o ao presente de forma provocativa. "Olhava para as pessoas ao meu redor e só enxergava cansaço e depressão. Estavam apagadas, sem qualquer vontade de pensar num mundo melhor", registra.

Apesar de o Oriente Médio passar por uma onda de protestos e reivindicações políticas e sociais, a cineasta de 34 anos lamenta que só as gerações mais velhas se interessaram pelo filme. "Filmes autorais só dão certo na Europa. No mundo árabe, não. Nenhum festival quis exibí-lo", assinala. O orçamento foi de US$ 75 mil, a partir de três fundos europeus.

Passado e presente estão unidos no filme

"A Reconstrução de uma Luta" deixou os críticos em dúvida: ao recorrer à encenação, o filme não se transformaria numa ficção? "Essa definição de gênero não é o mais importante. É um filme e ponto final. Não precisamos criar esses rótulos que separam ficção e documentário", pondera Rania.

A cineasta também faz questão de embaçar as fronteiras entre passado e presente. Um dos personagens usa um gilete descartável, que ainda não existia na década de 70. "Foi de propósito. Nossa noção de tempo nunca é linear", afirma Rania, que estreou em longas com "74".

Seu próximo filme será sobre as mulheres libanesas. Nada a ver com "Sob o Céu do Líbano" (2003), de que ela não gosta. "A questão tem uma essência mais complexa", adianta. Por sinal, em Curitiba, Rania viu muitas semelhanças entre as mulheres do Líbano e do Brasil.

Perigo

"A gente conversa e se entende, porque elas também sofrem problemas relacionados com o amor e a religião. A sociedade é muito machista", compara Rania, que não tem medo de criticar a Al-Jazira. "A televisão é muito perigosa, fazendo um jornalismo muito simples e não informando direito as pessoas".


(*) O repórter viajou a convite da organização do festival