Depois do sucesso de “Bandersnatch”, filme derivado de “Black Mirror” lançado no fim do ano passado, a produção retorna ao catálogo da Netflix com novas histórias. A quinta temporada, que estreia nesta quarta (5), chega com o desafio de manter o furor causado pela série que, ao longo dos últimos lançamentos, dominou a pauta nas redes sociais, nas rodas de conversa e discussões a respeito da sociedade e da tecnologia. 

Para repetir o feito, a Netflix aposta em um elenco estrelado, com nomes como Miley Cyrus, Anthony Makckie (Os Vingadores) e Yahya Abdul-Mateen II (Aquaman). Mas, além disso, a série também retorna a um formato já conhecido e que deu certo: assim como nas temporadas iniciais, serão apenas três episódios.

Para Michel Arouca, editor-chefe da Série Maníacos, blog independente sobre séries de TV, a decisão de retomar o modelo original é um acerto.

​“Minhas temporadas favoritas são as primeiras. Nelas, o criador Charlie Broker teve mais tempo para escrever e desenvolver as histórias”, observa ele, que destaca ainda o episódio “White Bear”. “É o melhor de toda a série e foi concebido depois de um hiato de dois anos”, afirma, apostando em histórias com um teor mais psicológico. 

Já o jornalista Rodrigo Castro, do canal de críticas de filmes e séries Mixido, prevê uma temporada que provoque reflexões. “Espero ver algo que vá me fazer ficar pensando ‘pra quê isso tudo? Qual o sentido?’, que me provoque a refletir sobre o que estamos fazendo. A pior coisa que pode acontecer é ver uma produção desse naipe e depois ir preparar a janta, como se nada tivesse acontecido”, diz.

Aliás, é nesse choque, muita vezes causado pela série, e nas reflexões levantadas pelas histórias que se justifica muito do sucesso de “Black Mirror” e da comoção causada pelas histórias. 

“É uma série que une dois universos que fascinam e amedrontam em uma mesma medida: os nossos tempos e a contemporaneidade. A pegada futurística da série tem fortes laços com o que vivemos hoje, então ela acaba nos fazendo refletir sobre o ponto em que estamos e para onde estamos indo – e se é desejável mesmo ir pra onde os caminhos estão apontando”, destaca Castro. 

Fã de Black Mirror, a negociadora Ariel Cardoso, de 19 anos, vê no lado analítico da série a grande potência da produção. “De forma sutil, faz uma crítica à atual sociedade e acaba mostrando para nós erros que às vezes deixamos passar despercebidos”, afirma. 

Mas não é somente o enredo futurístico e distópico que justifica o sucesso da produção. O modelo de antologia, que traz uma história diferente a cada episódio, também é um ponto forte. “É um formato muito atraente e favorável ao roteiro”, destaca Arouca.

Para ele, a liberdade dos episódios independentes favorece a própria produção. “Isso ajuda a atrair atores famosos e diretores competentes que não podem se comprometer com longas gravações”, pontua.

Para Michel Arouca, editor-chefe do site Série Maníacos, a nova temporada deve trazer um teor mais psicológico, envolvendo traições, surtos e sobrecarga de trabalho

Contribuição

Embora “Black Mirror” não acumule tantos episódios – são apenas 19 –, é possível afirmar que o impacto causado pela produção trouxe contribuições para o universo das séries. 

Um deles é relacionado ao próprio formato de antologia, que ganhou ainda mais força – o que, de certa forma, motivou o retorno de “The Twilight Zone”, sucesso dos anos 1960.

Além disso, a produção também estimula modelos diferentes, como a própria interatividade de “Bandersnatch”, e experimentações estéticas, como o episódio “Metalhead”, apresentado em preto e branco.