Não há dúvidas de que as radionovelas foram um fenômeno indiscutível na era de ouro do rádio no Brasil (anos 30). Mas engana-se quem pensa que as narrativas em áudio ficaram lá no passado. A popularização dos podcasts nas plataformas digitais coloca a dramaturgia feita para ouvir em franca expansão, conquistando cada vez mais fãs.

O principal responsável por esse retorno é o podcast de storytelling que, assim como era nas rádios, aposta em narrativas dramatizadas e efeitos sonoros. Tudo isso com um ingrediente bem conhecido dos tempos atuais: o formato on demand, que permite ao usuário escutar o conteúdo onde e quando quiser. 

Aliás, é nessa característica, mais acessível, que Marcelo Cafiero, um dos criadores do uaiPod – Encontro Mineiro de Ouvintes e Podcasters, vê a justificativa para que os áudio dramas voltem à cena. “[Você não precisa estar em momento ou lugar específicos. Você pode ouvir enquanto dirige, enquanto faz outras atividades”, pontua, destacando a vantagem do formato até mesmo diante do streaming de vídeo, que requer uma atenção mais focada. 

Mesmo que à primeira vista as narrativas de áudio remetam às antigas radionovelas, Cafiero explica que, no podcast, o formato extrapola o conteúdo, com opções de apresentação. Um deles traz algum fato ou acontecimento “como se fosse um jornalismo investigativo em áudio”. O segundo traz histórias fictícias contadas sem multiplicidade de personagens e vozes distintas. Tudo para instigar a imaginação do público.

Cenário 

Mesmo que seja um fenômeno recente no país, os áudio dramas  já são consagrados nos Estados Unidos, por exemplo, e Cafiero não vê surpresa no sucesso do gênero. “Há sempre uma demanda por narrativas. Até mesmo no YouTube, se você reparar, muitos vídeos vão construindo uma narrativa de alguma forma, mesmo que seja breve”, observa. 

Outros fatores também contribuem para o êxito do formato. Ouvinte assíduo de podcasts, o servidor público Itamar Melgaço, de 27 anos, destaca o envolvimento proporcionado pelos áudio dramas. “Mesmo que sejam casos antigos, os podcasts te envolvem na narrativa. É como um livro falado. Acho sensacional ficar escutando”, opina. 

A variedade de conteúdo facilita a escolha do público. Itamar Melgaço, que costuma escutar mais de 10 podcasts diferentes, toda semana, confessa que acompanha desde produções voltadas ao sobrenatural até mesmo as histórias reais. 

“O ‘Projeto Humanos’, principalmente as temporadas antigas, são os melhores possíveis. Outros muito bons são o criptologia, que na primeira temporada narra sobre pessoas sensitivas e como elas lidam com isso e o ‘Ponto G’, que fala de mulheres incríveis na história”, lista.

Com histórias reais, "Projeto Humanos" é um dos podcasts mais ouvidos do país 

O interesse pelos podcasts storytelling já fazia parte da rotina do curitibano Ivan Mizanzuk mesmo antes que ele idealizasse sua primeira produção, o AntiCast, em 2011. Mas foi somente em 2015, após pesquisar e estudar o formato, que ele decidiu colocar em prática o desejo de experimentar o gênero criando o “Projeto Humanos”. 

A empreitada, que começou a partir de uma história contada pelo pai, agora é um dos podcasts mais populares do país –no Spotify, é o quarto mais ouvido e no iTunes ocupa a quinta posição no ranking brasileiro. 

Com temáticas que vão desde o Holocausto à Guerra na Síria e até mesmo detalhes sobre o sistema judiciário brasileiro, Mizanzuk define a produção como entretenimento informativo. “É uma mídia que tem alto potencial de imersão, que consegue te informar e entreter. Na primeira temporada, consigo entender o Holocausto através da história de Lili Jaffe, uma judia sobrevivente. Na segunda, entendo a situação da Síria pela história de refugiados brasileiros”, exemplifica.

Mas foi mesmo na temporada mais recente – que vai virar livro no próximo ano – que Mizanzuk mergulhou num tema que sempre quis abordar “O Caso Evandro”. A produção recupera a história de um menino de seis anos encontrado morto, sem cabelos, mãos e vísceras após desaparecer em 1992. “É algo que me assombra desde criança. O ‘Projeto Humanos’ segue muito o que acredito ser uma boa história, o que me desperta interesse. Porque produzi-lo é como um casamento, tenho que estar muito apaixonado pelo tema, senão não dá para desenvolvê-lo”, explica. 

Apesar da curiosidade envolvida no caso, que chegou a ser considerado na época algo relacionado a um ritual satânico, Mizanzuk destaca o caráter informativo da temporada, o que reforça a definição dele do projeto como algo que vai além do entretenimento. “Apresento também o funcionamento de uma investigação e do sistema judiciário brasileiro, que é ainda pouco conhecido aqui. Acabamos aprendendo mais sobre o sistema norte-americano por conta dos filmes”, diz.

Desafios

Apesar do sucesso do “Projeto Humanos”, Mizanzuk sublinha os desafios das várias etapas que constituem a produção de uma temporada. O primeiro é a escolha da história. “Depois disso, é preciso encontrar alguém que fale bem. Encontrando essa pessoa, coletamos o material, verificamos e aí, na apuração, vem a parte que eu acho a mais legal, mas que ao mesmo tempo é muito cansativa: olhar para tudo e saber como construir uma história que seja imersiva e que mantenha a curiosidade do ouvinte ativa para a próxima etapa”. 

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