Neurônios a mil e muita alegria. Essa é a forma de trabalhar do gestor de cultura de Belo Horizonte, o baiano Juca Ferreira, que aceitou, no início da semana passada, convite do prefeito Alexandre Kalil para, como ele mesmo frisa, caminhar “na contramão do que está sendo feito na cultura do país”.  Experiência não falta: ele foi ministro da Cultura no governo de Lula. De Brasília, onde se desfaz de compromissos assumidos anteriormente, Juca Ferreira conversou com o Hoje em Dia e deu outra solução para uma discussão que vem dividindo artistas e políticos: é melhor criar uma secretaria de Cultura, como Kalil vem pleiteando junto à Câmara de Vereadores, ou continuar com a Fundação Municipal de Cultura? A intenção não é optar por uma ou outra, mas ter as duas, com a secretaria dando força política e a fundação agilizando projetos e programas. “Uma secretaria bem desenvolvida tem uma estrutura descentralizada, com uma ou até mais fundações. Isso é normal”, salienta Juca, que também foi secretário de Cultura de São Paulo, na administração de Fernando Haddad (PT). Para BH, planos não faltam. E ele ilustra a própria forma de trabalhar citando os ambulantes de café de Salvador. “O carrinho deles tem luz, buzina, amortecedor... Eles brincam e vendem café. Esse é um bom paradigma. O trabalho não pode ser visto como um fardo. Gosto de trabalhar com alegria”, observa Juca, que não conseguiu dormir cedo no dia que foi anunciado. “Passei a noite vendo a repercussão na internet e respondendo as felicitações”.
 
O impacto do anúncio de seu nome para gerir a área cultural de Belo Horizonte foi grande, em vista do trabalho desenvolvido no Ministério da Cultura, no governo Lula, e na Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, na administração de Fernando Haddad. Como surgiu esse convite do prefeito Alexandre Kalil?
Há uns dez dias estava participando de um fórum internacional, organizado pela embaixada da França, sobre gestão cultural, quando recebi um aviso de que o prefeito gostaria de falar comigo. Ele fez o convite e eu pedi alguns dias para pensar. Na segunda-feira passada passei o dia em Belo Horizonte, cheguei cedo, pegando o primeiro avião de Brasília. Naquele mesmo dia, o prefeito tuitou que eu iria comandar a cultura de BH. Mas só vou assumir no dia 19, pois precisei voltar para Brasília para ficar um pouco com a família, que não irá comigo para BH (terei que ficar na ponte aérea), e ver com as pessoas alguns compromissos que eu já vinha desenvolvendo. Esse tempo também é importante para pensar, pois quanto maior a proposta, mais ela exige reflexão.
 
Quando Alexandre Kalil lhe chamou, por tudo o que você construiu para a cultura do país, ele tem algo em mente que corresponda com esse passado de ações para o setor? Podemos esperar uma mudança significativa na forma de o Executivo ver a cultura da cidade?
Ele tem um mérito importante que é ir na contramão do que está sendo feito com a cultura no país, que está sendo completamente esvaziada, com a tentativa de extinção de ministério e corte de verbas. Um erro generalizado que atinge vários Estados e municípios. Ele (Kalil) está destoando ao querer recriar a Secretaria Municipal de Cultura e procurar oferecer o máximo de possibilidades e, com isso, avançar a cultura de Belo Horizonte. Ele merece todos os elogios. Espero poder, de fato, dar uma contribuição para o desenvolvimento cultural de BH e de Minas. E pelo protagonismo que a cidade tem, do Brasil também.
 
Para a cidade, é melhor ter uma Secretaria de Cultura ou uma fundação, que foi instituída em 2005, na segunda gestão de Fernando Pimentel?
Essa oposição não existe. Acho que essa discussão não está bem posta. A criação da secretaria não acaba com a fundação. A ideia é ter uma estrutura orgânica, em que a existência da secretaria colocaria a cultura no patamar de outras políticas, participando de reuniões com o prefeito e valorizando o orçamento para a área. Já uma fundação cultural pode nos dar agilidade na captação de recursos e na execução de programas e projetos. Uma secretaria bem desenvolvida tem uma estrutura descentralizada, com uma ou até mais fundações. Isso é normal.
 
“Diferentemente do que o governo federal atual pensa, não é possível fazer cultura nesse país sem o desenvolvimento das cidades”
 
Essa experiência obtida numa esfera macro, à frente da pasta da cultura no governo federal, pode ser proveitosa no sentido de pôr a cidade como protagonista cultural?
Claro. Além da experiência do governo federal, fui secretário de cultura da maior cidade brasileira, São Paulo, que tem características muito próprias. É importante entender que o sistema nacional tem relação com a cidadania, com os artistas, com a produção cultural e com a produção em geral. Diferentemente do que o governo federal atual pensa, não é possível fazer cultura nesse país sem o desenvolvimento das cidades. As pessoas fazem cultura no lugar onde vivem, em seu território. Belo Horizonte tem uma diversidade cultural, uma complexidade, e por isso é importante ter uma gestão profissionalizada, com método, planejamento e recursos. As artes de BH são muito importantes do ponto de vista nacional. Aqui tem as melhores companhias de danças, grupos de teatro muito potentes e uma produção de conhecimento enorme, presente também na periferia, com o hip hop e outras manifestações. 
 
"Essa oposição não existe. Acho que essa discussão não está bem posta. A criação da Secretaria (Municipal de Cultura) não acaba com a Fundação (Municipal de Cultura)”
 
Logo no início da gestão de Alexandre Kalil, ele deixou claro que enxugaria a máquina, especialmente na área de cultura. Como trabalhar projetos com poucos recursos?
Ele não disse isso. Na campanha dele já falava em recriar a secretaria e fortalecer a gestão cultural. Mas, claro, há um esforço de se racionalizar a estrutura pública, cortando gorduras. Isso é bom. Eu até brinquei com ele, lembrando que lá em casa tem uma pitangueira em que é preciso podá-la uma vez por ano para ela voltar ao seu vigor maior. A estrutura política cresce, cresce e passa a contar com alguma gordura, que é pouco produtiva. O dinheiro público tem que ser tratado com todo carinho. Cada gasto empregado tem que ser justificado, tem que haver uma razão de ser. Estruturas obesas são ineficientes e comprometem o resultado. A estrutura precisa ser fortalecida para dar conta de seu papel, né?
 
Em sua gestão no Ministério da Cultura, a área cinematográfica teve destaque....
Não só no Ministério, mas na Secretaria de São Paulo também. Criamos a SPCine, uma empresa pública de cinema de importância nacional, que abriu dezenas de salas de cinema em vários pontos da cidade. O cinema é uma linguagem importante e contemporânea. Aliás, o audiovisual. Estávamos avançando nos games, no cinema de animação e na distribuição. Um avanço nacional e também em São Paulo.
 
“Primeiro vamos ouvir o máximo possível. Não farei nada sem esse diálogo, considerando todos os aspectos”
 
Mas a pergunta é sobre o acervo de 90 mil itens de cinema que estavam sendo preservados no Centro de Referência do Audiovisual (Crav) e que agora serão transferidos para o Cine Santa Tereza, com grande desaprovação de funcionários e realizadores.
Primeiro vamos ouvir o máximo possível. Não farei nada sem esse diálogo, considerando todos os aspectos. A minha maneira de conduzir uma gestão é com um sistema colaborativo, construindo sinergia e enfrentando diferenças com inteligência. Essa é a minha forma de trabalhar: diálogo, diálogo e diálogo.
 
Já que você mencionou a SPCine, podemos pensar em algo semelhante em BH?
Primeiro vou escutar, ouvir as demandas para entender as necessidades e construir junto. Não só pensar no cinema, mas montar ações para outras áreas também. Uma das coisas que aprendi nesses anos é que a cultura é abrangente, diversa e que é preciso compreender a sua complexidade.
 
A equipe já tem nomes?
Não montei a equipe ainda. Muito pelo contrário. Estou enfrentando as dificuldades de compromissos que havia assumido, vendo como equacionar tudo isso. Tem a família, que ficará em Brasília. Tenho uma responsabilidade com eles também.