Talvez nunca se saiba com clareza por que razões é sempre muito raro encontrar um espetáculo de rua. Algum que tanto consiga mobilizar as atenções do público quanto as graças da crítica. Portanto é feliz anunciar que mais um, entre tão poucos, vem pertencer a esta espécie de clube tão reduzido: é "Júlia" do grupo Cirquinho do Revirado, de Criciúma, Santa Catarina.
 
Convidado a apresentar quatro sessões na edição mais recente do Festival Internacional de Rio Preto (SP), que chegou ao fim na madrugada deste domingo, o espetáculo deixa bem claro porque integra a grade do Palco Giratório, o projeto de circulação e formação do Sesc nacional, que leva os espetáculos mais interessantes da temporada anterior por diversas cidades do país afora.
 
E pensar que "Júlia" teria quase tudo para ser apenas mais um entre centenas. 
Pois recorre à mesma dupla de personagens pobres e em litígio constante, moradores das margens da sociedade, que se utilizam de uma casa-carroça para se deslocarem e para ambientarem a sua cena.
 
Só que a fé cênica (como se entregam às ações que praticam como atores) com que Reveraldo Joaquim e Yonara Marques injetam em cada situação, a boa escolha dos objetos que compõem o espetáculo, a capacidade notável de improvisar dos atores (essencial a quem está exposto aos imprevistos da rua), a dinâmica das sequências e o vigor dos atores fazem toda diferença. Para melhor.
 
Perante tantas virtudes, o público de todas as idades se rende completamente: gargalha, se surpreende, estarrece (numa das apresentações, a casa-carroça quase que despencou ribanceira abaixo) e, no final, aplaude calorosamente o espetáculo. Embora os dois personagens sejam ríspidos tantas vezes, utilizem palavras e atitudes de baixo calão e repreendam ferozmente o bom mocismo de fachada de quem os assiste.
 
"Louça Cinderella"
 
Indicado em 2011 a sete categorias do Açorianos, um dos prêmios mais respeitados das artes cênicas em Porto Alegre (acabou recebendo três: ator, cenografia e iluminação), "Louça Cinderella" parece deter bem menos do que o prêmio alardeia. 
 
Autor, co-diretor e ator do espetáculo da companhia de teatro de animação Gente Falante, Paulo Martins Fontes busca utensílios de chá e café para recontar fábulas clássicas de Perrault e irmãos Grimm. Já mostrou resultados melhores. Neste, sobrevoa a capacidade infantil de fazer nexos entre objetos e situações e seu interesse para histórias de amor e confiança, mais desfrutáveis por adultos.
 
Seis textos de Ésquilo à meia luz e atores quase que imóveis no palco
 
Poucos diretores agregaram tanta respeitabilidade no teatro nos últimos anos quanto Roberto Alvim e seu grupo, o Club Noir. Tem essa assinatura tão reconhecida a montagem de seis textos do grego Ésquilo (525-456 aC), o mais antigo dramaturgo que se tem notícia, divididos em três espetáculos. 
 
Distinguido com prêmio em São Paulo, o projeto de resgate destas tragédias tem o título de "Peep Classico" e fez três sessões pelo FIT.
 
Abordados todos à mesma maneira (em luz escassa, apenas um tubo florescente, ao fundo; os atores quase que imóveis, em figurinos pesados, como vozes apenas), os textos nem se diferenciam tanto. As vozes não se prestam a sublinhar convenientemente as histórias. Os atores se empenhariam em fazer música das palavras que dispõem. Como encenação, portanto, as três montagens soam como "mais do mesmo". Viu uma, viu todas. Nem há o que acompanhar, já que os enredos não se evidenciam. Nem a música pretendida é suficiente, pois as vozes não são musicais como se gostaria.
 
Também de São Paulo, "Corinthians, meu Amor", da Brava Companhia, é menos defensável ainda. Na busca por imitar o sotaque popular, a encenação começa por servir bebidas e comidas e se perde num amontoado de clichês sobre tipos e situações que supostamente identificariam o chamado "povão". Mas se a função da arte é ampliar a compreensão das coisas, a proposta consegue ser, no máximo, redutora e equivocada.
 
 
*Viajou a convite do 13º FIT/SP