A ideia de Jean-Luc Godard era fazer um filme de gângster como “Scarface” e “Inimigo Público”. Escrevendo as cenas poucas horas antes de serem rodadas, o resultado ficou muito distante do que ele havia planejado. Ainda bem. Do contrário, “Acossado” seria apenas uma imitação francesa e não o filme que revolucionou a linguagem cinematográfica. 
 
Lançado em 1960, ele retorna hoje aos cinemas em cópia digital. Catapultou à fama um ator “feio e sem talento” (Jean-Paul Belmondo), criou um dos casais mais improváveis do cinema (um ladrão e assassino e uma turista americana) e ajudou a firmar o movimento da Nouvelle Vague, que teve ainda François Truffaut e Alain Resnais em suas fileiras.
 
Mais de meio século depois de seu impacto mundial, o filme ainda carrega um frescor, apesar de ter sido bastante imitado. Um dos motivos é o estilo único de Godard, capaz de levar toda uma “cultura ocidental de centenas de anos” para as suas obras, como destaca o pesquisador Mário Alves Coutinho, um dos grandes especialistas no Brasil no cineasta franco-suíço.
 
Jean-Luc Godard aparece no filme como o transeunte que denuncia à polícia o herói vivido por Jean-Paul Belmondo
 
O autor do livro “Godard, Cinema, Literatura: Entrevistas” (Editora Crisálida) e organizador de “Godard e a Educação” (Autêntica) observa que Godard encheu seus filmes de citações à cultura clássica e moderna. “Ele recorre à literatura, à poesia, às artes plásticas, à música erudita e não erudita, que aparecem insistentemente na trilha sonora, aos quadrinhos, ao rádio e ao jornal – ‘Acossado’ começa com um plano que mostra mais um jornal do que o rosto do herói”, assinala.
 
Jump cuts
Na trama escrita por François Truffaut, parceiro de Godard na revista “Cahiers du Cinema”, um ladrão (Michel Poiccard) rouba um carro e mata um policial, passando a ser perseguido enquanto tenta conquistar uma americana (Patricia Franchini) que vende jornal em Paris, correndo de um lado para outro da capital francesa. A maneira como foi filmado, com cortes rápidos (os chamados “jump cuts”), se transformou num lugar comum no cinema mundial. 
 
“Sua influência se deu de maneira mais difusa, especialmente na linguagem”, sublinha o pesquisador. Parafraseando o teórico brasileiro Paulo Emilio Salles Gomes, ele aponta a “incapacidade criativa de copiar” de Godard como a razão do sucesso de “Acossado”. Justamente por ter flertado com o filme de gênero, o cineasta fez a sua obra mais acessível. 
 
“Embora não seja um filme de gênero clássico, ele tem vários dos elementos presentes neste tipo de narrativa, como a presença da mulher fatal, que acaba traindo o protagonista de alguma maneira, o tanto que se fuma em cena, os carros... Enfim, são ingredientes que tornam a leitura mais fácil para o espectador médio”, registra Coutinho.
 
Em sua tese de doutorado, defendida na USP em 2004, o professor Alfredo Manevy, que foi secretário de cultura da cidade de São Paulo, já identificava uma sólida ponte com o cinema clássico americano. “Tem muito do film noir na construção de Poiccard, com seu sobretudo e chapéu de feltro. E Patricia tem muito de uma femme fatale nova-iorquina em Paris. Mas ele tem algo do neorrealismo também na forma de filmar na rua. Podemos citar várias influências”, afirma.