A imagem acima, com Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie num elevador, representa a única cena do filme “O Escândalo” – uma das principais estreias de hoje nos cinemas – em que as três atrizes estão juntas.

Não é uma produção que deposita sua força na reunião deste trio, apesar da divulgação apontar o contrário. O tema é o seu combustível, apostando em duas questões bastante inflamáveis: Donald Trump e assédio sexual.

Baseado num caso real que derrubou um dos chefões da Fox News, canal conservador dos Estados Unidos, o filme dirigido por Jay Roach tem como um dos seus méritos costurar uma crítica que hoje vale para diversos países.

Os momentos iniciais mostram a luta de uma âncora (Charlize) contra os ataques machistas do presidente americano. Este embate, rechaçado pela cúpula da emissora, se junta a um histórico de assédio do diretor da Fox News.

Assim, o roteiro liga o fato público – de um político que usa o poder contra a imprensa– ao particular, tornando-o fruto de uma sociedade que, por muitos anos, escondeu as relações desiguais de trabalho entre homens e mulheres.

Mergulhar no âmago da sociedade estadunidense vem alimentando filmes como “A Grande Aposta” – sobre o mercado financeiro – que igualmente se valem de histórias paralelas com grandes atores em papéis-chave.

A diferença é que “O Escândalo” não traz um ritmo de thriller, com acentos cômicos. A narrativa é mais cadenciada, primeiramente frisando a naturalidade como são permitidos certos abusos contra a mulher.

Surgem questões como beleza (a velha desculpa para demitir mulheres experientes e assediar as mais novas), personalidade (em nome da política da empresa, elas não podem emitir suas opiniões) e superioridade masculina.

Chama a atenção na trama que o advogado que defende o big boss da Fox seja uma mulher, bem como a iniciativa de várias colegas das âncoras que revelaram os casos de assédio e logo se posicionarem a favor do algoz.

Ao escalar três gerações de atrizes, o filme deixa claro a sua mensagem, sobre continuar permitindo uma cultura machista que poderá ter nossas filhas como vítimas, estampada no diálogo entre as personagens de Charlize e Margot.

JohnLitghow tem uma atuação impecável como o poderoso executivo que faz valer a máxima que “os crápulas também envelhecem”. O seu peso e a dificuldade de andar refletem justamente a falta de liberdade e a vigilância.

“O Escândalo” tem várias sequências (talvez até em demasia) que revelam esse estado de “Grande Irmão” na empresa, que, numa escala micro, é muito simbólica da intolerância e da perseguição cometida pelo governo.

Outro problema do filme é dar muita relevância à disputa entre Trump e a âncora na primeira parte e praticamente deixá-la de lado na metade final, embora seja possível ver no presidente e no executivo a mesma face.