Não basta ser genial. É preciso pagar um preço muito alto para se ter esse dom. Assim como outros três concorrentes ao Oscar (“A Teoria de Tudo”, “Grandes Olhos” e “Wiplash”), o inglês “O Jogo da Imitação”, uma das estreias nos cinemas, também aposta na fórmula do “quanto mais inteligente, mais dor sofrerá”.

Em todos eles, o que vemos são artistas e cientistas provarem o próprio valor em detrimento do amor, da família e, muitas vezes, dos ideais. A escolha do físico Stephen Hawking (“A Teoria de Tudo”) é abdicar-se da esposa. A de Andrew (“Whiplash”) é perder qualquer vínculo social em função do aperfeiçoamento dele na bateria.

O “pacto” do matemático Alan Turing, em “O Jogo da Imitação”, é o mais bem desenvolvido, porque não recai em condenações moralistas (a esposa abandona Hawking, preso a uma cadeira de rodas, por um homem completamente são) ou saídas simplistas (a pintora vítima da sociedade machista, em “Grandes Olhos”).

Prova disso é o efeito que os créditos finais provocam nos espectadores, ao descobrirmos as façanhas de Turing, não só fundamental para a vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial, ao decifrar os códigos de comunicação dos alemães e evitando a morte de 14 milhões de pessoas, bem como para a criação de algo tão presente em nossas vidas: o computador pessoal.

Thriller de espionagem

Esse desconhecimento é resultado da inabilidade para viver em sociedade, característica que o filme busca destrinchar ao mesmo tempo que assume o formato de thriller de espionagem, com as tensões envolvendo os bastidores da guerra. O (pouco conhecido) diretor norueguês Morten Tyldun conduz as duas linhas narrativas sem se perder nos saltos temporais.

Interpretado por Benedict Cumberbatch, que confere ao personagem uma fragilidade quase infantil sem soar caricato, Turing tenta se agarrar à sua genialidade, mas nos momentos em que precisa mais do que isso para viver, ele se transforma numa vítima indefesa, perseguido por seus impulsos sexuais que, aparentemente, ele mesmo não consegue decifrar tão rapidamente quanto os códigos de guerra.

O filme se apoia numa relação de vias opostas, entre o tempo de armas e aquele momento em que as pessoas não são condenadas por sua ideologia, mas sim por opções particulares que ganham a patrulha do Estado. Esse é o grande tema: das escolhas arbitrárias que envolvem a perda de milhares de vidas numa batalha à intervenção no cotidiano de alguém que não afeta a sociedade.

Assista ao trailer:


    "O Jogo da Imitação"