Quando não estava ensaiando ou à frente das câmeras, o elenco infantil de “O Menino no Espelho” – adaptação da obra do escritor mineiro Fernando Sabino para o cinema, com estreia nessa quinta-feira (19) – se concentrava numa descoberta: falar uns com os outros usando apenas duas latas e uma linha como telefones.

Uma antiga brincadeira que está no cerne da narrativa empregada pelo diretor Guilherme Fiúza, condutor de uma história singela e emocionante sobre o que ele chama de “infância mágica”, ausente da vida de grande parte das crianças de hoje, às voltas com tablets, smartphones e videogames.

“Se estão escorregando o dedo numa telinha é porque não têm espaço para brincarem. No meu tempo, a gente ficava na rua ou no quintal, brincando com serrote, martelo e prego, algo impossível de os pais permitirem agora. Isso foi tolhido pelos adultos, que inventaram esses brinquedos tecnológicos”, lamenta.

O filme retrata, em suas palavras, a importância de se criar esse tipo de espaço, mostrando crianças livres, que têm onde se expressar. “Dos garotos do elenco, o único que usufruía disso era o Murilo (Quirino), de Cataguases (cenário principal das filmagens), que ia e voltava sozinho da escola. Em BH não temos mais isso”, registra.

Essa aposta reflete o espírito brincalhão do autor. Fiúza lembra que, ao final da vida, Sabino se comportava como um menino. “A ponto de, um dia, seu filho mais velho, Pedro, lhe falar de um projeto em que ganhariam muito dinheiro e ele responder que sua única preocupação era com os amigos”, reproduz.

Um sósia para as coisas chatas

A intenção de ser mais fiel possível à “busca de um menino que está dentro de Fernando Sabino” levou Guilherme Fiúza, diretor de “O Menino no Espelho”, a apostar todas as suas fichas na história.

“Se incluísse efeitos especiais, estaria jogando no campo do adversário (filmes de Hollywood). E eles fazem isso melhor do que a gente. Não quero concorrer com ‘Harry Potter' ou outro do gênero”, observa.

Mas ele recorre a um exemplo do “inimigo” para explicar suas escolhas: “Amo de paixão ‘ET’.Tem efeito especial, mas não é tão presente. O filme é a história de um garoto que descobre um mundo cruel”.

Sósia

Para abordar uma “outra infância” sem ter que trabalhar cenas na pós-produção, Fiúza teve que abrir mão de alguns capítulos do livro que exigiriam efeitos especiais. “Não acrescentariam tanto, por isso cortamos”.

Baseado no romance homônimo lançado em 1982, o filme acompanha um menino que, diante do espelho, descobre a solução para seus problemas: ter um sósia para fazer tudo o que considera chato.

A história se passa em 1938, apesar de o livro não exibir uma data precisa. “Foi o ano do punching (golpe)em Vargas. Gosto desse período de Getúlio Vargas no poder. É quando o Brasil contemporâneo se molda”.

Levante

Foi ainda mais longe: a um dos personagens ele adicionou uma identidade integralista – seguidor do movimento conservador que promoveu um fracassado levante contra Vargas, em 10 de maio de 1938.

Também incluiu algumas de suas preferências cinematográficas à fachada de um cinema, como “Ganga Bruta”, do pioneiro Humberto Mauro, e “O Anjo Azul”, de Josef von Sternberg, protagonizado por Marlene Dietrich.

“Sou encantado com o filme de Sternberg, especialmente pela cena em que Dietrich aparece sentada num barril cantando”, destaca Fiúza. E “Ganga Bruta” não poderia faltar por Mauro ter morado justamente em Cataguases.

A cidade mineira da Zona da Mata foi a escolhida para se passar por Belo Horizonte. “É conhecida mais por ser modernista, mas encontramos lá um nicho de casarios do final do século 19 com calçamento perfeito”, salienta.

“Gosto de trabalhar com época. Apesar de tudo ser caro e ter que ser reconstruído, você está recriando uma história. E optamos por uma Belo Horizonte invernal, mais para um mês de junho e julho. Por isso filmamos nessa época”, revela.

Na locação, Facioli fazia todas as perguntas

Para encontrar o protagonista Fernando e os outros cinco personagens mirins, a produção realizou cerca de quatro mil entrevistas. “A produtora de elenco me perguntava como seriam essas crianças e eu respondia que não sabia. Não havia uma premissa de que deveriam ter experiência anterior. Eu até preferia que não, para não chegarem com determinados vícios”, afirma Fiúza.

O diretor, que assina seu primeiro longa-metragem solo, diz não acreditar na expressão “ator” mirim. “Criança não interpreta, mas sim brinca. Se você tenta fazê-la interpretar, aí vira aquilo que eu chamo de tatibitati. Quando a gente vê crianças fazendo coisas fofinhas, eu, como criança que está no cinema, não me identifico”, analisa.

Ligado

Do elenco da cultuada série “Game of Thrones”, Lino Facioli ficou com o papel principal. Radicado em Londres, “ele possui uma curiosidade muito grande”, segundo o diretor. Tínhamos que levá-lo primeiramente para a locação para que pudesse fazer todas as perguntas”, lembra. Já a atriz Bárbara Moreira é filha de Inês Peixoto e Eduardo Moreira, integrantes do grupo Galpão.