O escritor mineiro Luiz Ruffato é categórico: “O Brasil tem uma vocação suicida”. Para ele, há um monte de gente morando no mesmo espaço físico, sem alimentar nenhuma ideia de nação. “O que nos une não é o bem comum, o pensamento de coletividade. A eleição só escancarou essa vocação à intolerância, ao individualismo, à mediocridade e à ignorância”, assevera.
 
Esse Brasil permeado pelo ódio está estampando no livro mais recente, “O Verão Tardio” (Companhia das Letras), que será lançado hoje, às 19h30, no auditório da Cemig. “Claro que é uma leitura minha, não sendo a melhor ou a única. Pode ser que alguém leia o livro e não veja nada disso. Porém, os três irmãos que estão na história são representantes de estamentos da sociedade”. 
 
Os personagens não conversam entre si e pouco se importam com a vida dos outros. Nesta Cataguases “suja, violenta e dominada pelo tráfico de drogas, há o cheiro da exacerbação da violência pequena, ocorrida no dia a dia, como a violência contra os gays, os pobres, feita no trânsito...está presente como um pano de fundo”. A falta de esperança é o aspecto que mais salta aos olhos na história.
 
Ruffato destaca que, em boa parte da sua obra, os personagens fazem o movimento de migração, saindo da cidade da Zona da Mata para São Paulo ou Rio de Janeiro. Já “O Verão Tardio”, assim como em “O Mundo Inimigo – Inferno Provisório Vol. II” (levado ao cinema com o título “Redemoinho”), o caminho é inverso, a partir do retorno de Oséas.
 
“Nos outros romances, os protagonistas saíam em busca de uma vida melhor, de emprego. Agora, mostro alguém que construiu mal ou bem uma vida em São Paulo e que, por diversos motivos, tenta reatar laços do passado. Mas tudo mudou – ele e o país não são mais os mesmos. Esta é a grande questão colocada no livro”, salienta o autor mineiro.
 
O que difere “O Verão Tardio” de “Inferno Provisório Vol. II”, explica, é que, neste, existe um embate de ideias sobre se foi melhor sair da cidade ou ficar, sem oferecer uma resposta clara. “Antes havia uma opção. Agora o olhar é mais pessimista: não valeu a pena ter ido, pois tudo é a mesma merda”, destaca.
 
É aí que chegamos à ideia de “país suicida” defendida por Ruffato. O momento da virada teria acontecido em 2015, segundo ele, quando a então presidenta Dilma Rousseff inicia o segundo mandato e não consegue governar.  “Ali o Brasil estava caminhando claramente para a radicalização e fazendo a sua opção pela mediocridade”, considera o escritor.
 
Recordes negativos
Para Ruffato, o brasileiro virou um extremista. “A imagem que se tem”, frisa o escritor, “é de um povo cordato, mas não passa de uma imagem que gostaríamos que tivessem da gente. Como somos super gentis se temos 70 mil homicídios por ano, se temos os maiores índices de feminicídio e morte de gays? A violência doméstica é a mais alta do mundo e matamos 50 mil pessoas no trânsito”.
 
O escritor assinala um contraste entre o fato de estarmos vivendo o mais longo período democrático do país e alimentar uma grande neurose. “Usamos as mesmas respostas para problemas diferentes, sendo a única proposta um apelo ditatorial. Confesso que até acreditei que estávamos nos civilizando, mas, na verdade, estávamos nos barbarizando”.
 
A maneira como Ruffato, hoje residente em São Paulo, exibe Cataguases é constantemente motivo de críticas da população. Esta reação não importa ao escritor, que diz não querer mostrar a cidade real, mas sim aquela construída dentro de um espaço mítico. “Uma coincidência interessante, que pode ser boa e ruim, é que Cataguases é um microcosmo da história política, social e econômica do Brasil”, sublinha.
 
Para ele, a cidade mineiro é como um mini-Brasil. Por isso, se diz privilegiado ao nascer (em 1961) em Cataguases, enxergando todas as vantagens e desvantagens que o Brasil tem, muitas delas levadas ao papel por este que é um dos mais importantes nomes da literatura brasileira contemporânea.
 
Serviço:
Lançamento do livro “O Verão Tardio” – Hoje, às 19h30, no auditório da Cemig ( Rua Alvarenga Peixoto, 1200). Entrada franca.