Eles não dispensam uma, digamos assim, “velharia” – mas, por favor, aqui, a palavra não adquire um tom pejorativo. Seja vasculhando antiquários e brechós, ou os armários e porões de familiares, o objetivo é encontrar os chamados “itens vintage”. Palavra muito em voga nos últimos tempos que ganha cada vez mais entusiastas.

Para se ter uma ideia, no início deste mês, uma feira com cerca de 60 expositores levou cerca de oito mil pessoas à Lagoa dos Ingleses: a segunda edição do “Mercado das Pulgas” comercializou de roupas a luminárias. O público? “Pessoas entre 25 e 50 anos, que consomem moda e objetos de casa”, diz Paulo Rogério, produtor cultural e idealizador do evento que – detalhe – também é colecionador de peças vintage.

Para ele, a sociedade vive a “era do descartável”, e obter peças antigas é como preservar uma história – e ser único. “O grande prazer é saber que esses materiais são permanentes”, comenta. E a paixão pelo antigo é tal que Paulo se dedica, agora, a fabricar brinquedos da “época dos vovôs”, como cavalinhos, boliche, carrinhos, tudo de madeira. “Sempre que um avô vai comprar brinquedo para um neto, ele quer dar algo que fez parte da sua infância”, justifica.

VINTAGE X RETRÔ

Desde muito nova, a gerente e decoradora da Casa e Flora Mangabeiras, Carol Guidi, 39 anos, nutre apreço por peças antigas. “Meu pai sempre teve essa prática e herdei esse gosto”, conta a moça, que tem desde um gramofone até estofados antigos em casa.

Seu automóvel, vale dizer, é um fusca 1968. “Tenho peças ‘herança de família’ que fiz questão de pedir, mas também costumo garimpar muito em antiquários. Quando você consegue determinada peça, dá uma sensação de orgulho”, explica.

Para ela, a peça vintage “aquece” o ambiente e se torna um diferencial, assim como os itens retrô. Sim, há uma diferença entre eles. “O vintage é a peça original comprada em antiquário. Retrô é produto novo no qual o designer foi inspirado em objetos antigos, com cara de passado”, explica Carol.
O gosto – tanto pelo vintage quanto pelo retrô –, a decoradora transferiu para a loja. Um exemplo é a réplica de uma bicicleta italiana, ou os blues e o ventilador antigos. “Mesclamos peças com cara de vovó a outras totalmente contemporâneas. Isso tira a frieza de uma loja”, acredita.

Afinadíssimos com a filosofia do uso consciente da moda

Adepto do slow fashion – que prega a reutilização de peças e compra em brechós – o estudante de psicologia Alexandre de Lima, 23, tem, em seu guarda-roupa, looks vintage, que herdou de seus avós. “Acredito no uso renovável da moda”, justifica o moço.

Além de roupas, ele tem relógios antigos e, em todas suas viagens, leva os pertences na mala que foi de seu avô. “Faço viagens internacionais com essa mala. Utilizo a mesma para uma viagem de três dias ou de uma semana”, conta o rapaz, que já foi parado em alguns lugares. “As pessoas perguntam se é vintage ou retrô. Chama a atenção porque são malas sem rodinhas”, diverte-se. Alexandre confessa. “Tenho um cuidado especial com essas malas, o que acaba me forçando a não carregar muita coisa”.

QUALIDADE

A durabilidade das peças antigas é algo que também atrai Alexandre. “Antigamente, a alfaiataria era mais barata e os tecidos, mais resistentes. Tudo era feito sob medida, o que tornam essas peças únicas”, comenta Alexandre, que tem, entre suas roupas preferidas, um blazer de tweed. “É uma das heranças de família que uso muito”, destaca.

Assim como ele, o advogado Cláudio Antônio, 30 anos, possui relíquias da família. Uma geladeira de 1957 – que foi de seu avô – confere todo o charme à sala de sua casa. “Dizem que essa foi a primeira geladeira da cidade de São João Evangelista, onde meu avô morava”, conta Claudio.
 
Em tempos de kindle, até livro é vintage”, brinca o advogado
 
Em tempos de kindle, até livro é vintage”, brinca o advogado
 
O eletrodoméstico guarda várias histórias. “Os familiares contam que meu pai adorava tomar água gelada, e toda hora ia à geladeira. Um dia, meu avô fez ele tomar toda água gelada que havia”, rememora. Para o advogado, essas lembranças valem ouro. A geladeira foi um presente de casamento que ele e a esposa pintaram de amarelo e utilizam atualmente como um bar. “Curto demais essa linha vintage, pois o designer tem a ver com essas coisas quadradas de hoje em dia”, justifica.

Um ventilador antigo também é um dos xodós do casal. “É antigo, mas é moderno, entende? Cai super bem no ambiente”, tenta explicar o advogado que curte não só o vintage, mas também o retrô.

O liquidificador da casa e a vitrola são peças novas com design inspirado em objetos antigos. Além disso, a cada 15 dias o rapaz visita lojas de vinis para ampliar sua coleção. “É bom entrar na loja, trocar ideia com o dono do lugar e descobrir raridades”, afirma.