É quase impossível não associar os blocos de plástico colorido à infância: por horas, não há nada além das peças e da imaginação para criar figuras. Mas muita gente que deixou de ser criança faz tempo nem pensa em abrir mão do brinquedo que, mesmo octogenário, é uma febre no mundo inteiro. Na casa de vários marmanjos, o Lego ainda é o centro das atenções.

Raphael Garcia, de 28 anos, cresceu sem deixar a paixão para trás. Com mais de 20 mil peças em casa, curte o ritual de abrir a caixa, espalhar os bloquinhos na cama e começar a criar.

“Gosto mesmo é de contemplar a obra feita. Para mim, serve de terapia”, confessa o publicitário e músico, que já investiu mais de R$ 5 mil no passatempo. Formas complexas, como o caminhão com guindaste de 70 centímetros, são as prediletas, mas o set mais especial da coleção particular é a casa dos Simpsons.

Outro “legofanático” é o engenheiro de tecnologia da informação Guilherme Lima. Membro da comunidade LUG Brasil, que reúne viciados no brinquedo, ele ganhou o primeiro Lego aos 7 anos. Hoje, aos 30, reserva uma verba mensal para aumentar o acervo.

“O que me prende é poder criar coisas novas. Não repito formatos, faço sempre algo diferente”, diz Guilherme, que trouxe de Portugal um bloco com o próprio nome gravado. “É meu amuleto”.

Também professor de robótica, ele vai apresentar em novembro, em São Paulo, um robô de 50 centímetros que desenvolveu especialmente para o Encontro Nacional de Montadores de Lego. “De hobby virou profissão”, conta o engenheiro, que no ano passado foi ao cinema duas vezes conferir o filme “Uma aventura Lego”.

RIVALIDADE

A Lego respondeu à altura à concorrência com tablets, smartphones e videogames. Lançou jogos eletrônicos, filmes e até carrinhos de controle remoto feitos ou inspirados nas peças de plástico.

A estratégia conquistou Gregório de Almeida, de 30 anos. Ele tem mais de 20 modelos de Lego, além de livros e jogos de videogame sobre o assunto.

Da última viagem aos Estados Unidos, o engenheiro eletricista trouxe a réplica da espaçonave Millennium Falcon, da saga Star Wars. “Como a caixa era muito grande, tive que desmontar tudo e encher a mala de pecinhas”, lembra Gregório, que se desfez de todos os brinquedos da infância, menos do Lego.

Monta e desmonta incentiva criatividade e raciocínio

As pecinhas vão muito além de um mero passatempo. Também estimulam a criatividade, afirma o psicanalista Fernando Corradi, de 33 anos.

“Por não ser um brinquedo pronto, o Lego trabalha o potencial de criação da criança. Isso se estende para a fase adulta, uma vez que você pode montar o que quiser. É uma diversão fantástica para todas as idades”, diz.

O profissional, inclusive, recorre aos bloquinhos multicoloridos no consultório. “Várias crianças têm dificuldade para falar dos próprios problemas. A partir do que elas montam, peço que contem uma história e dali sai muita coisa”.

A versatilidade do brinquedo fez com que o engenheiro industrial mecânico Felipe Leite, de 32 anos, elegesse o Lego a única opção de presente durante a infância.

“Um carrinho vai ser sempre um carrinho. Já com o Lego, você pode fazer o brinquedo que quiser. Isso sempre me fascinou”.

O deslumbramento se estendeu à fase adulta, tanto que o engenheiro não se desfez de nenhuma coleção que ganhou e ainda comprou outras.

“O último foi um skate guiado por controle remoto”, diz Felipe, que brinca com as peças até hoje.

“Minha namorada tem um filho de sete anos. Quando ele vem me visitar, aproveitamos para brincar juntos”.

NADA DE BONECAS

Quem pensa que o Lego faz a alegria só dos meninos está redondamente enganado.

A multi instrumentista Bárbara Machado, de 31 anos, desde cedo trocou a Barbie pelos baldes de bloquinhos. Recentemente, tirou tudo do armário para montar novamente.

“Sempre gostei do que exige raciocínio. O Lego é isso: você precisa quebrar a cabeça para sempre fazer algo novo”.

A empolgação após a redescoberta do brinquedo foi tão grande que Bárbara comprou novas coleções. “Nunca é tarde para retomar velhos hábitos”, brinca a musicista, que confessa a vontade de conhecer um dos parques temáticos da empresa.

“Quero que minha próxima viagem seja para a Legolândia, nos Estados Unidos. É um sonho para todos os fanáticos pelo brinquedo”.