Quando o ainda garoto Lima Duarte chegava em casa, no distrito mineiro de Desemboque, na região do Triângulo Mineiro, após passar horas brincando em meio à natureza, uma das primeiras ações da mãe era saber se o filho tinha ido tomar banho num rio profundo. Ela tinha um método infalível para descobrir sobre as andanças dele, o que sempre terminava em duas coisas: uma surra e uma dança. 

“Ela me segurava e fazia um risco na minha perna. Quando você se seca ao sol, o risco fica. Como era muito pequena, eu a segurava para me bater. E ela falava: ‘me segura direito’. Eu respondia que, se a segurasse direito, ela bateria direito. Então ríamos e terminávamos dançando. Era assim a minha infância”, lembra o ator num vídeo que integra a “Ocupação Lima Duarte”, realizada pelo Itaú Cultural, em São Paulo, e aberta na quarta-feira.

A exposição homenageia os 90 anos do ator mineiro, um dos grandes ícones da TV brasileira, celebrado por personagens como Zeca Diabo, de “O Bem-Amado”, Sassá Mutema, de “O Salvador da Pátria”, e Sinhozinho Malta, de “Roque Santeiro”. A trajetória de Ariclenes Venâncio Martins – nome de batismo dele - praticamente se confunde com a história do meio televisivo no país, que também faz aniversário em 2020, completando sete décadas.

“Ocupação Lima Duarte” ficará em cartaz até 10 de janeiro no Itaú Cultural, em São Paulo, e poderá ser acompanhada de casa, em transmissão ao vivo de um educador diretamente do espaço expositivo

“O Lima foi buscar os equipamentos da TV Tupi no porto de Santos, junto com Assis Chateaubriand (fundador da emissora). Ele passou por todos os processos de construção da linguagem televisiva, que é diferente do teatro, de onde vinha a maior parte dos atores. Estes tiveram que aprender um outro jeito de interpretar”, registra Tânia Rodrigues, gerente do Núcleo Enciclopédias do Itaú Cultural.

Legado
Embora Lima Duarte tenha feito história na TV, a exposição teve o cuidado de buscar outros ângulos da carreira do ator. 
“A proposta da Ocupação é homenagear artistas que a gente considera referência para a arte brasileira e que, de alguma maneira, deixam ou deixaram um legado. Mas sempre tentar contar esta trajetória de uma maneira não necessariamente pelas coisas mais marcantes”, destaca Tânia.

O trabalho de pesquisa privilegiou uma cenografia mais tradicional, onde se via uma reprodução da casa do ator em Desemboque, para mostrar o lado contador de “causos”. A pandemia, no entanto, levou a equipe do Itaú Cultural a uma experiência nunca antes feita, com a contratação de um roteirista para transformar a história numa espécie de filme, dividido em cinco partes, cada uma exibida numa sala diferente.

“Ficou muito bonito. Trabalhamos com a ideia de planetário, numa imersão mesmo”, assinala Tânia. Lima fez várias gravações, a começar pela leitura do próprio roteiro. “Ele põe a interpretação dele, um jeito de falar as coisas que é muito próprio dele. E também deu lindos depoimentos. No final, ele convida as pessoas a voltarem com ele para Desemboque”, adianta a gerente.

Lima mora atualmente em Indaiatuba, interior de São Paulo, mas todo ano retorna à terra natal, especialmente na data de seu aniversário. “Ele, no fundo, tem Minas com ele, está dentro dele, no sentido de que é uma pessoa que gosta de contar um causo e, ao mesmo tempo, ser meio desconfiado, fazendo bem o imaginário do mineiro que temos”.

Ator foi dublador de personagens da Hanna-Barbera

Lima Duarte é o único artista vivo que participou da inauguração da televisão no Brasil, em 18 de setembro de 1950. Pouco tempo antes, ele saiu de Desemboque e chegou a São Paulo num caminhão que transportava mangas. Começou no rádio, como sonoplasta, ganhando mais tarde a chance de ser radioator. Foi quando adotou o nome artístico Lima Duarte, que seria o nome de seu guia espiritual, sugerido pela mãe.

Após marcar presença na inauguração da TV Tupi, ele participou da primeira novela nacional, intitulada “Sua Vida me Pertence”. Na emissora também dirigiu dois grandes sucessos, ‘Direito de Nascer” e “Beto Rockefeller”. Ingressou no grupo Teatro de Arena, onde participou de peças emblemáticas, como “Arena Contra Zumbi”.

Lima também foi dublador, emprestando a sua voz ao gato Manda Chuva, ao crocodilo Wally Gator e ao cavalo Pepe Legal, em desenhos da Hanna Barbera. Em 1973, veio o seu primeiro grande personagem: Zeca Diabo. O lado proseador se destacou no programa dominical “Som Brasil”, em que recebia violeiros e contava causos.

No cinema, também teve grande destaque em “Os Sete Gatinhos” (1980) e “Sargento Getúlio” (1983), pelo qual ganhou o Kikito de melhor ator no Festival de Gramado, “Boleiros – Era uma Vez o Futebol” (1997), “A Ostra e o Vento” (1997), “O Auto da Compadecida” (2000) e “Eu Tu Eles” (2000).