Indicada ao Globo de Ouro e uma das apostas para o Oscar deste ano, a animação “Moana”, da Disney, em cartaz nos cinemas, tem um toque brasileiro. O longa-metragem contou com oito profissionais das terras tupiniquins em sua produção, incluindo a belo-horizontina Natalia Freitas.

Formada na Faculdade de Belas Artes da UFMG, a artista teve que passar por três meses de treinamento no estúdio da Disney antes de ser selecionada para participar da equipe do filme. “Soube da vaga pela internet. Foram três selecionados. Passamos por esse treinamento e depois fomos avaliados para saber se estávamos prontos para entrar para a produção”, conta Natalia, que era a única mulher entre os brasileiros que trabalharam em “Moana”.

Na animação, a mineira trabalhou no departamento de “Look Development”, responsável por criar texturas e materiais que definiram a aparência dos personagens, cenários e todos os elementos 3D do filme. “Foi um trabalho muito divertido de fazer!”, garante.

 

Tutoriais no Youtube

Apaixonada por artes visuais desde a infância, a curiosidade e a sede de conhecimento são constantes na vida dela. Tanto que aprendeu a trabalhar com animação em 3D assistindo tutoriais no YouTube. Há cinco anos morando e trabalhando fora do Brasil, Natalia esteve uma temporada na Alemanha, onde conseguiu uma bolsa para estudar na conceituada escola de animação Filmakademie Baden-Württemberg. Aliás, é a única brasileira a ingressar no instituto. “Foi maravilhoso estudar em um escola que investe nos alunos. Tive a chance de trabalhar com mais de 20 projetos e dirigir o meu próprio curta-metragem”, comemora.

Sobre possíveis resistências para entrar em um mercado liderado por homens, ela é enfática: “Quando decidi que queria trabalhar fazendo animação, eu não me preocupei se haviam mais homens ou mulheres. O que importava era fazer o que eu amava. Não me deixo intimidar. Tive problema somente em um estúdio pequeno de BH, mas nada que me fizesse desistir da área”. 

Entre as referências e inspirações para sua carreira, estão os desenhos da Disney, Pixar, Nickelodeon, Cartoon Network e os clássicos do Chuck Jones. Ela ainda destaca Antonio Filho. “Foi meu professor na UFMG, que me ensinou e despertou um grande amor pela animação”. Dos nomes que despontam no mercado, ela cita “o já famoso Carlos Saldanha”, e destaca Renato dos Anjos, animador e supervisor de animação na Disney, e Leo Matsuda, primeiro brasileiro a dirigir um curta na Disney.

Natalia diz que guarda uma semelhança com a protagonista de “Moana” – que não é uma princesa e sim uma aventureira. “Saí de Minas Gerais, fui para o Rio Grande do Sul, depois Alemanha e EUA. Tive coragem de deixar a família e os amigos para trás para correr atrás de meus sonhos”.

 

Natalia Freitas
Natalia nos estúdios Disney

 

 

Leia a crítica do flime:

‘Moana: Um Mar de Aventuras’ troca princesa por heroína preocupada com seu povo

 

Mercado brasileiro de animação está em franco crescimento 
Natalia Freitas acredita que o mercado brasileiro de animação está crescendo. “Prova disso, são os longas-metragens e séries de TV que foram produzidos neste período”, considera.

Quem compartilha da opinião de Natalia é o diretor e um dos criadores do Anima Mundi – Festival Internacional de Animação do Brasil, César Coelho. “Alguns anos atrás a gente exportava somente animadores. Hoje exportamos animação brasileira”, garante, acrescentando que a animação é hoje uma das maneiras mais viáveis de fazer cinema nacional.

Segundo César, várias séries brasileiras são líderes de audiência não só no Brasil como no exterior. “Atualmente, no ar, a gente tem mais de 20 séries, e outras dezenas sendo produzidas”, relata. 

“Irmão do Jorel”, “Gui e Estopa”, “Princesas do Mar”, “Peixonauta” – que ganha um longa-metragem este ano – e “Historietas Assombradas” são alguns títulos de séries brasileiras que ganharam o mundo. 

Outro fato que voltou os holofotes para a produção brasileira foi a indicação do curta “O Menino e o Mundo”, de Alê Abreu, ao Oscar no ano passado. “Nos últimos 13 anos, a animação brasileira mudou radicalmente. Isso fica evidente com essas conquistas, como a do Alê. É fruto do que vem sendo cultivado nesses anos”, comenta Coelho. 

Para ele, alguns dos gargalos da produção brasileira são a distribuição e a formação dos profissionais. “‘O Menino e o Mundo’ foi visto muito mais vezes no exterior do que no Brasil. Na França, ele ficou um ano em cartaz, antes mesmo de ser indicado ao Oscar. E no Brasil ficou semanas”, relata. Quanto a formação, afirma, é preciso investir em capacitação. “Há várias iniciativas sendo desenvolvidas, mas a maior parte da mão de obra ainda é autodidata”.