O fato da protagonista Paula atravessar o filme inteiro com uma cicatriz na cabeça é muito sintomático do que “Jovem Mulher” pretende dizer. Em cartaz nos cinemas, a produção francesa aborda a transição na vida de uma garota que havia abandonado a família e a cidade natal (Paris) para morar com um fotógrafo famoso.

Largada por ele e sem estrutura emocional para se adaptar à nova realidade, Paula realiza uma longa caminhada de (re) descobertas, sobre si mesma e sobre o outro. Uma jornada difícil em que o machucado visível na testa faz questão de sempre nos lembrar que ela não será feita sem traumas, numa reconciliação fácil com o passado.

Lentamente a narrativa do diretor Léonor Serraille vai chegando ao ponto que pretende sublinhar, um tema muito debatido na atualidade: a questão da mulher humilhada pelo namorado após anos de relacionamento, e que, sem perceber, é levada a acreditar que é dependente dele, sentindo-se fracassada na sua ausência.

É neste ponto que encontramos Paula, numa ótima interpretação de Laetita Dosh. Na primeira cena, ela bate a cabeça na porta com toda força, depois que é expulsa de casa pelo parceiro; como perdesse o seu farol e passasse a navegar sem qualquer orientação ou destino.

Prisão

A âncora surge justamente em outra mulher, negra, lésbica, independente e “do mundo”, que trafega facilmente por todas culturas. Numa fala desta, ela diz com todas as letras que a liberdade é o maior prêmio que se pode ganhar. Paula custa a entender que estava vivendo numa grande prisão, sem jamais poder fazer suas escolhas. 

O filme, que ganhou o prêmio Câmera de Ouro do Festival de Cannes deste ano, patina um pouco na metade final, enveredando pelo riso fácil. Mas o tema não perde seu vigor, mesmo quando há um previsível acerto de contas de Paula nos instantes finais.