Ele iniciou no mundo da literatura com apenas 12 anos, quando lançou uma novela policial e, de lá para cá, só intensificou a paixão pela escrita, pelas artes e pelo debate. Trinta e seis anos mais tarde, o jornalista e advogado Rogério Faria Tavares é o imortal à frente da Academia Mineira de Letras (AML). Com o objetivo de aproximar a instituição da cidade e de catalogar e disponibilizar o acervo ao público, ele toma posse hoje na Casa, cuja diversidade de pensamentos promove intenso debate sobre temas diversos. A data, aliás, é especial. Tavares foi eleito integrante do seleto grupo exatamente há três anos, em 24 de junho de 2016. Ele é o entrevistado no Página 2 desta semana.

Como você se aproximou da Academia?
Eu trabalhava em uma grande montadora de veículos quando a empresa fez uma parceria com a Academia Mineira de Letras, ainda durante a gestão do Olavo Romano, em meados de 2013. E essa parceria possibilitou o programa “o autor na Academia” que trazia todo mês um escritor importante para conversar com o público da cidade gratuitamente. 

O programa durou três anos e foi o grande responsável pelo estreitamente dos meus laços com a Casa. Eu já tinha bons amigos na Academia e o número deles aumentou a partir dalí. Fui convidado a concorrer a uma vaga pelo falecimento do acadêmico Milton Reis e fui eleito. 

Tomei posse em junho de 2016 e continuei a promover eventos literários. De 2016 até agora, participei intensamente da vida da Academia coordenando sua programação cultural. Devo ter feito seguramente mais de 120 eventos literários nos últimos três anos. 

E hoje, como funcionam os eventos realizados na Casa?
Realizamos quase que semanalmente eventos gratuitos, abertos ao público, convidando a cidade à participação da vida na Academia. Essa é uma preocupação muito grande que a gente tem aqui nesta Casa, que existe para cultivar o amor pela literatura e pela língua portuguesa e, também, para cativar as pessoas em favor dessas duas paixões que temos aqui.

Rogério Tavares é um dos mais novos presidentes da Academia Mineira de Letras

"A programação da AML é acessível e do interesse de todos"

Como é a programação?
A programação é acessível e do interesse de todos. Os temas são basicamente tudo o que envolve mundo da literatura, das artes, das letras, da história. Eu acredito muito no poder transformador do livro e da leitura. E acho que quem ama os livros e gosta de ler tem chance de ter uma vida mais interessante, mais plena. Porque o livro nos coloca em contato com outros horizontes e amplia a nossa mente e a nossa experiência vida. 

Vc diz que os eventos são gratuitos. Que tipo de eventos são esses?
Quase todos palestras ou conferências dedicadas a autores e livros. Convidamos autores, professores universitários, escritores, críticos literários, entre outros, para compartilhar com o público os seus conhecimentos. O que aprenderam sobre determinado livro, sobre determinado autor tudo isso de maneira agradável. As palestras duram cerca de 50 minutos e depois há um momento de interação do palestrante com o público, um olho no olho, sem a mediação do celular. 

A Academia incentiva o contato direto entre as pessoas. Aqui é um lugar de convivência amena, cordial, elegante, amiga. Esse é o papel das academias desde que elas surgiram, com Platão, em 387 antes de cristo. Para discutir os temas que inquietavam as pessoas naquela época. E para trocar experiências. 

E tem muitos pensamentos opostos na academia?
Têm sim. Temos nos nossos quadros sociais 40 membros. Entre eles, homens públicos como Patrus Ananias, do PT, Ângelo Oswaldo de Araújo, que foi prefeito de Ouro Preto pelo PMDB, Amílcar Martins, do PSDB, Bonifácio Andrada, também do PSDB, por exemplo. São homens com visões ideológicas muito diferentes, que defendem diferentes visões de mundo. 

E a Academia é o lugar em que todas essas pessoas podem se reunir em torno de uma mesa, sobretudo em uma mesa de chá, e possam conversar com tranquilidade, cordialidade sobre todos os temas que interessam à cultura brasileira e, sobretudo, à cultura de Minas Gerais. 

Temos também integrantes do clero, como o presidente da CNBB e Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor, o padre jesuíta José Carlos Aleixo e Cônego Vidigal. E essa diversidade é um dos segredos da riqueza que a Academia pode oferecer à cultura de Minas. 

Também passaram por aqui gerações de poetas, pensadores, ensaístas e homens públicos, como Tancredo Neves, Milton Campos, Juscelino Kubitschek, Afonso Arinos, entre outros. A academia soube ao longo de 110 anos acolher toda essa diversidade. Ela chega firme e forte porque soube compreender que Minas são muitas. 

Quais outros papéis a Academia desempenha?
Principalmente o de ser a guardiã da memória do nosso Estado. A academia completa esse ano 110 anos, é um aniversário muito importante.
O Brasil é um país ainda muito jovem, tem pouco mais de 500 anos. Além disso, é um país em que poucas instituições que superam um século de existência. E a Academia é uma delas. Ela nasceu em Juiz de Fora em 1909 e soube acompanhar o seu tempo. Soube vencer os desafios do século 20 e ingressar no século 21, sempre conciliando tradição e modernidade. 

Qual a participação das mulheres na Academia?
Em 1963, Henriqueta Lisboa entrou para a Academia. Ela foi a primeira mulher a participar dos quadros da AML, quando a Academia Brasileira de Letras (ABL) não tinha admitido ainda nenhum mulher. Isso só veio a acontecer em 1977, 14 anos depois. 

Quantas mulheres fazem parte da Casa hoje?
Quatro: Maria José de Queiroz, que escreveu Joaquina, a filha de Tiradentes e virou minissérie de Globo, Yeda Prates Bernis, Carmen Schneider e Elizabeth Rennó. Elizabeth Rennó foi a primeira mulher a presidir a Casa, em mandato que terminou agora, dando contribuição importantíssima à Academia. A meu ver, o número de mulheres é muito baixo ainda. Queremos aumentar porque há no Estado uma quantidade expressiva de mulheres ligadas à cultura. 

E como entra na Academia?
Primeiro, é necessário que haja a vaga. Para isso, é preciso que um de nós morra. Havendo o falecimento, é declarado aberto o posto e podem concorrer quaisquer interessados em se associar à Casa, desde que tenham pelo menos escrito um livro.

Quantos vc já escreveu?
Seis

O livro pode ser sobre qualquer tema?
Qualquer um. Não há restrição temática. Podem ser livros científicos, técnicos, jurídicos, obras literárias, entre outros. Esse modelo é seguido pela academia francesa e pela brasileira. Embora sejamos uma academia de letras, não entendemos letras no sentido estrito de literatura e ficção. Todo aquele que se dedica à produção da escrita está apto a concorrer a uma das vagas na Academia Mineira de Letras. E isso também garante a diversidade nos quadros dessa casa.

A produção literária mineira é intensa?
Muito. Temos em no Estado uma produção literária vigorosa que precisa ser respeitada e valorizada. Temos poetas de primeira linha, grandes nomes da poesia contemporânea, escritores excelentes. E as mulheres continuam comparecendo. A academia respeita, honra e valoriza essa produção. 

Rogério Tavares
 "É preciso que toda a sociedade brasileira, tanto o poder público quanto a iniciativa privada, tome consciência dessa crise do setor literário e procure os meios mais adequados para resolvê-la"

Como a literatura é difundida nas ruas atualmente? 
A literária se manifesta nas feiras literárias e nos festivais. Temos importantes editores e livreiros em Belo Horizonte e é dever da Academia respeitar e valorizar toda a cadeia produtiva do livro, inclusive as editoras e livrarias. Temos em BH, por exemplo, a maior rede de livrarias do país.

Várias livrarias, como Saraiva e Cultura, estão imersas em seríssimos problemas financeiros. Qual o impacto dessa crise para a produção literária e no consumo de livros?
Interfere muito e eu vejo com muita apreensão essa crise vivenciada pelo setor. É preciso que toda a sociedade brasileira, tanto o poder público quanto a iniciativa privada, tome consciência dessa crise e procure os meios mais adequados para resolvê-la. Não há esperança sem educação, não há possibilidade de progresso e desenvolvimento social sem educação. E a educação se dá pelo livro e pela literatura. Não se faz uma nação livre, democrática e cidadã sem o consumo largo e intenso de livros e literatura.

E a internet pode ajudar nesse propósito? Ou ela é rival da produção literária?
A internet é parceira, é forte aliada da literatura. Tenho total consciência de que a internet pode ser uma grande porta de entrada para o consumo da literatura. E as redes sociais são canais de comunicação fundamentais para atração desse público. Principalmente, entre os mais jovens. Mas cabe tanto à família quanto à escola educar essas crianças no uso das tecnologias. Não pode ser um uso desregrado. 

Tenho grande apreço, inclusive, por todos aqueles que mantêm blogs dedicados a fazer resenhas literárias Tem blogueiros que leem e comentam. Elas são fundamentais para o setor.