A mãe de Jonas sempre perguntava quando iriam parar com aquela “brincadeira”. Na verdade, eram duas as brincadeiras: uma, o circo que o garoto improvisou no quintal de sua casa, na periferia de Salvador. A outra, o flagrante da diretora Paula Gomes sobre um sonho prestes a desaparecer, transformado no documentário “Jonas e o Circo Sem Lona”, que será exibido em pré-estreia hoje, às 19h10, no Cine Belas Artes.
 
“A gente sabia que era uma história que não iria durar para sempre. Muitas vezes, durante as filmagens, a gente se pegava dizendo para durar mais um pouquinho. Sabíamos que, para Jonas, não se tratava de uma brincadeira”, assinala a cineasta, para quem Jonas foi um exemplo para a própria equipe, estimulando a continuar, apesar dos poucos recursos. “Ele era a nossa inspiração”, afirma.
 
A câmera de Paula Gomes está o tempo inteiro com o protagonista mirim, acompanhando a sua persistência em pôr o cirquinho de pé, ao improvisar palhaços, malabaristas e mágicos e encher de cores e alegria uma região pobre e violenta da Bahia – a região metropolitana de Salvador está entre as três localidades de maior criminalidade do país.
 
Desistência
A mãe surge como uma contraposição ao sonho de Jonas, sempre tirando-o de ideia sobre ser artistas. Ela foi do circo e, pelo fato de o circo não fixar lugar por mais de 15 dias, não pôde estudar. “Nenhuma escola queria aceitá-la. Sem conseguir concluir os estudos, isso acabou sendo um obstáculo para buscar trabalho. Ela não quer que ele desista da escola, apesar de a escola muitas vezes mostrar que está desistindo dele, ao oferecer nada de diferente ao que é obrigatório. Todos os alunos são tratados da mesma maneira”, analisa.
 
Paula observa que o circo itinerante ainda tem papel fundamental no acesso à arte, especialmente no interior, onde, ela destaca, não há teatro ou cinema. “A Bahia é tão grande quanto Minas. Apesar de todas as dificuldades, como armar lona e conseguir ponto de luz, o circo é o único espaço cultural num lugar que não se chega nada”, afirma a diretora, que sente na pele essa dificuldade, sem conseguir exibir “Jonas e o Circo Sem Lona” nessas localidades, por falta de estrutura.
 
Restos
Ela conheceu Jonas e sua família há dez anos, quando eles ainda estavam no circo. Paula preparava um curta de ficção sobre o universo do circo e visitou cerca de 30 espaços em três meses. “Fiquei muito amiga deles, estava sempre acompanhando-os. Eles deixaram o circo e se estabeleceram na periferia, mas Jonas nunca se adaptou. Um dia ele me ligou para convidar a ver o circo que montou no quintal, com os restos daquilo que um dia foi o circo da família. Logo vi que tinha um filme ali”.