O diretor e artista carioca Fernando Bicudo é meio que um sinônimo da ópera no Brasil e no exterior. E é ele quem assina concepção, direção artística e cênica de "Fedra e Hipólito", criação musical e libreto do americano Christopher Park, que cumpre seis récitas no Grande Teatro do Palácio das Artes a partir de sábado (15) – uma só para convidados.

É a estreia mundial desta ópera, que o maestro, estudioso e consultor Luiz Aguiar e a diretora de produção da montagem local, Lúcia Tristão, conheceram em primeira mão numa leitura em Nova Iorque e se empenharam em colocar de pé. E contaram com o aval da Associação Amigas da Cultura.

O enredo é uma versão de "Hippolytus", que Eurípedes escreveu em 480 AC. A tragédia sobre a paixão oculta de Fedra pelo enteado, Hipólito. É a mesma trama que o francês Jean Racine adaptou ao teatro, mas que jamais havia sido vertida para o ambiente operístico.

"Curiosamente não, já que a história é tão interessante, o desenvolvimento dos personagens é riquíssimo, com várias triangulações de amores, uma ciumeira enorme entre uma personagem e outra", frisa Bicudo, admitindo paixão pela música de Park.

"Jamais trabalho por outra motivação. É um privilégio que tenho, algo raro, que faz muito bem à minha alma".

Ousadia

Mais de 120 artistas sobem ao palco na empreitada: 58 músicos da Orquestra Sinfônica, 25 cantores do Coral Lírico, 20 bailarinos da Sesc Cia. de Dança, 12 solistas e oito figurantes. Em sua maioria, os solistas foram escolhidos em audição. Entre os destaques, a mineira Rita Medeiros, uma das intérpretes de Fedra, bem como Leila Guimarães, carioca, mas de pai mineiro, que morou e estudou canto durante alguns anos em BH; e os cariocas Max Wilson e Aníbal Mancini, intérpretes de Hipólito.

Alguns cantores foram especialmente convidados para a montagem. Caso de Malena Dayen, argentina radicada nos EUA. E Luisa Francesconi e Juliana Franco, que atuaram em "Griselda", de Antonio Vivaldi, que Fernando Bicudo dirigiu em meados de 2012.

Sempre ousado no que dirige – desde "Orfeu e Eurídice", de 1984, à qual imprimiu uma Grécia futurista, de ouro e prata, e materializou o amor num raio laser –, Bicudo cerca "Fedra e Hipólito" de efeitos diversos. Na iluminação de Maneco Quinderé, na cenografia de Hélio Eichbauer, respeitadíssimos em suas áreas, e nos videodesigners de Fabio Passos e Fred Tolipan.

Um recorde de público na Quinta da Boa Vista com "Aida", de Verdi

O distinto público da ópera responderia muito satisfatoriamente às inovações paulatinamente absorvidas por esta arte tão antiga quanto sofisticada, acredita Fernando Bicudo. "Orfeu e Eurídice", por exemplo, teria sido "um sucesso estrondoso".

A crítica também saudou-a com entusiasmo: "Luiz Paulo Horta, crítico de ópera (do jornal) O Globo, saudou as novidades com a frase ‘finalmente, criatividade no palco do Municipal’", recorda. Pena, a montagem não conseguiu chegar a Viena, de onde recebeu convite.

Bicudo teve que escolher entre viajar e participar das comemorações pelos 200 anos de morte do compositor alemão Christoph Glück, ou montar um novo trabalho. A escolha não surpreende, se lembramos que ele já dirigiu mais de duas dezenas de óperas. É um fenômeno em fazer o que assina se manter em cartaz. Inclusive, detém o recorde de público de uma apresentação operística: levou meio milhão de espectadores à Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, em 1986, para ver sua versão de "Aida", o clássico de Verdi.