Não importa o país em que esteja. Se há um “novo” Woody Allen chegando às telas de cinema, Myriam Pessoa Nogueira para tudo para ver o filme do diretor. Foi assim em 2013, quando realizava um doutorado “sanduíche” em Detroit (EUA), na Wayne State University. “Era a estreia de ‘Blue Jasmine’. Não aguentei e fui até Chicago”, diverte-se a professora e pesquisadora de cinema, uma das muitas fãs de Allen ansiosas pelo lançamento de “Roda Gigante”, nesta quinta-feira (28).

Autora do livro “O Cinema e o Teatro de Woody Allen”, lançado recentemente pela editora Scriptum, Myriam, como toda cinéfila, já leu muita coisa a respeito de “Roda Gigante”, drama romântico protagonizado por Kate Winslet e Justin Timberlake. Além de acompanhar as novidades pela página virtual “Wood Allen Pages”, ela sabe, por exemplo, que, como ‘Blue Jasmine’, o filme carrega semelhanças com uma peça de Tennessee Williams, “Gata em Teto de Zinco Quente”.

Referências que são a base do livro dela, desdobramento de uma tese de doutorado defendida na Escola de Belas Artes da UFMG, há três anos. “Allen é muito influenciado por autores americanos, especialmente dos anos 30 e 50, como Eugene O’Neill, Tennessee Williams e Arthur Miller. Antes de ser cineasta, ele queria ser dramaturgo e chegou a escrever para a Broadway. Sempre buscou fazer o drama perfeito, desejo que levou para o cinema”, registra Myriam.

Nos Estados Unidos, muito do material que pesquisou sobre Allen foi colhido na biblioteca da Universidade de Princeton, que tem caixas e mais caixas com manuscritos doados pelo próprio Allen. Entre eles, vários textos inéditos para teatro, de um e dois atos. “Diversos filmes são baseados nestes trabalhos, alguns de estilo brechtiano ao usar um narrador – presente em ‘Roda Gigante’ também–para que o espectador tivesse um certo distanciamento da história”, aponta a professora.

Apaixonados por Allen são atraídos por peculiaridades e temas de seus filmes

Dono de uma locadora no bairro Luxemburgo, Randolfo Paiva aprendeu com anos atrás do balcão que Woody Allen é como um biscoito fino, voltado para paladares mais sofisticados. “É aquela velha frase: você ama ou detesta. Já indiquei filmes dele para clientes, que devolveram o DVD achando horrível o que viram”, lembra.

Ele é detentor de coleção invejável, com todos os filmes de Allen lançados em DVD. “Não costumo revê-los agora. Guardo para uma emergência. Quando chegar a minha aposentadoria, ficarei aliviado em tê-los em casa, sem precisar correr atrás deles”, salienta Paiva, fã do humor inteligente do cineasta, carregado de crítica aos costumes.

Outro fã incondicional do mestre, o psicanalista Alexandre Amaral se recorda do primeiro filme de Allen a que assistiu, “Bananas” (1971), da fase das comédias mais escrachadas do cineasta. “Vi no cinema Guarani, em 1976, logo depois de sair de Divinópolis para estudar em Belo Horizonte. Para mim, ele não mudou nada depois, sempre fazendo um humor certeiro”, assinala.

Com as primeiras impressões de "Roda de Gigante" remetendo a "Blue Jasmine", devido às semelhanças com peças de Tennessee Williams, o filme de 2013 voltou à baila. O psiquiatra e psicanalista Antonio Teixeira fez uma palestra no Cine Humberto Mauro recentemente sobre o filme.

Em "Blue Jasmine", a referência é a peça "Um Bonde Chamado Desejo", que se transformou em filme nas mãos de Elia Kazan, com Marlon Brando e Vivian Leigh. "No encontro de uma aristocrata decadente com um operário, vemos o desmoramento de alguns semblantes sociais", salienta Teixeira.

Na forma como Jasmine percebe a realidade, ela ignora as trapaças financeiras do marido. "Ela fica adormecida na superficialidade dos atos sociais. Quando é deixada pelo marido e vai para a casa da irmã, não consegue regular a realidade a seus valores", registra.

 

allen

Cena do novo filme “Roda Gigante”, que tem no elenco Kate Winslet e o cantor Justin Timberlake