É possível que soe como confissão tardia. De fato, é. Como também é, segundo o próprio autor, o romancista de Araraquara (SP) Ignácio de Loyola Brandão, uma carta póstuma ao avô. Mais do que isso, o livro “Os olhos cegos dos cavalos loucos” (Editora Moderna, 64 páginas, R$ 41) é uma narrativa sobre sonhos, fragilidade e perdão. Não à toa, aliás, Ignácio demorou mais de seis décadas para escrevê-lo: “Livros precisam de uma vida, às vezes”.

Vencedor do Prêmio Jabuti (com “O menino que vendia palavras” – 2008), o escritor conta agora a história do avô, José Maria, e dos olhos dos cavalos do carrossel de madeira – que pertencia ao avô – perdidos por ele na infância em um jogo de bolinhas de gude.

Na próxima quarta-feira (11), às 19h, o escritor de 78 anos estará na Academia Mineira de Letras (rua da Bahia, 1466, Centro de BH), onde lança esta que é a 41ª publicação dele. A entrada é franca. A seguir, leia a entrevista onde o escritor fala sobre paixão pela literatura e as pessoas.

“Os olhos cegos dos cavalos loucos” pode ser encarado como um presente para seu avô, um desabafo para você?

Por que escrevemos? Para nos livrarmos das culpas, dos pesadelos, do inexplicável, dos mistérios que nos assombram, dos nossos conflitos internos. Escrevemos para tentar entender a vida. E como nunca entendemos, essa busca se eterniza para cada um, para a literatura. Os “Olhos cegos...” é um livro que escrevi para mim, uma carta póstuma ao meu avô, um sujeito incrível, um grande artista. Essa carta, digo, esse livro, chegou até ele, de alguma maneira. Claro que é um enorme desabafo, uma confissão tardia, necessária para mim.

E por que demorou tanto tempo para que ficasse pronto?

Vou falar sobre isto na Academia (Mineira de Letras), o mistério do processo de criação. O tempo de cada livro. Por que uns saem, outros travam? Esta história era muito especial. Sofrida. Linda. Ao longo do tempo, tentei colocar o carrossel de meu avô no papel. Não conseguia. Tentava, jogava fora. Devo ter feito umas 20 versões. Há pouco, viajando pelo interior do Paraná ao lado de Marina Colasanti, o público pediu que fechássemos com duas histórias. Marina, maravilhosa contadora, arrasou. Naquele momento a história do carrossel de meu avô se desenhou inteira. Contei e vi lágrimas nos olhos das pessoas. Pensei: está pronta. De volta ao hotel, não dormi, escrevi a mão, direto, 40 páginas. Depois foi só apurar, aparar. Livros precisam de uma vida, às vezes.

Seria difícil contar outra história do seu avô?

Certa vez, ele estava com quase 90 anos, voltei de uma viagem – sempre fui jornalista, viajei muito – e chegando em Araraquara, corri até ele para contar que tinha descoberto uma cidade fantasma no Vale do Paraíba. Talvez ele soubesse, devia ser da época dele. “Quer visitá-la? Posso levar o senhor”. E ele, sorrindo: “Meu neto, não quero saber de cidades velhas. Quero saber da cidade do futuro: Brasília. Essa sim, quero ver. Minha época é hoje”. Infelizmente, não levei.

E agora que terminou fica uma sensação de vazio?

Em geral, há. O pós-parto nos deixa esvaziados, sem a companhia daquela gente que nos acompanhou, às vezes, por anos, mas no caso de “Os olhos...” foi diferente. Pela primeira vez em uma carreira de 50 anos senti alívio, fiquei feliz. Quando publico um livro, leio uma vez e nunca mais volto a ele. Dali em diante é do leitor, não é mais meu. No entanto, este livro é um que releio, releio feliz.
E o que te inspira?

O dia a dia. A observação do cotidiano. Converso com as pessoas, anoto muito, carrego sempre uma cadernetinha comigo. Ouço tudo que é normal, pode ser diferente. Tudo que é diferente, pode ser normal. Transfiro para o papel, transfigurando a realidade, tornando-a literatura. Os melhores personagens são as pessoas comuns, anônimas. Celebridades são de uma chatice e mistificação sem tamanho. Não são reais, vivem vidas inventadas.

Na infância você foi um garoto pobre e tímido. Posso dizer que foram as palavras as grandes responsáveis por levá-lo para uma vida melhor?

As palavras e as pessoas foram e são minhas grandes amigas. Sou tímido ainda, mas isso é um desafio a vencer a cada dia. A imaginação e a fantasia me levaram – e me levam – a uma vida melhor quando aqui está muito chato – e os tempos atuais andam chatíssimos. Pela primeira vez na minha vida vejo o país sem governo, o barco à deriva. Bem, nessa hora, recorro à imaginação, fico nela por um tempo de quarentena.