O formato de “Todos já Sabem” aponta para um thriller policial, com a ação se desenvolvendo a partir do desaparecimento de uma garota durante festa de casamento num povoado espanhol, mas o diretor iraniano Asghar Farhadi não está propriamente interessado na resolução pura e simples deste caso.

Como em seus trabalhos anteriores, entre eles “A Separação” e “O Apartamento”, ambos ganhadores do Oscar de melhor produção estrangeira, o realizador recorre a um incidente para falar mais das relações interpessoais e das diferenças sociais – em seu país de origem, ele aborda ainda o descaso e a burocracia governamental.

Estreia desta quinta-feira nos cinemas, “Todos já Sabem” nos remete ao francês “Sombras do Pavor” (1943), na maneira como estabelece uma teia conspiratória envolvendo uma tradicional família em ruína financeira. Outrora líder do povoado, ela vê os antigos trabalhadores prosperarem em suas terras.

Os dois acontecimentos – casamento e sumiço de uma das convidadas – são as duas faces de uma mesma moeda. O longo processo de chegada dos convivas, enfatizando a alegria do reencontro, vai ganhando contornos cada vez mais sombrios, não só pelo caso de desaparecimento, mas pela forma como segredos de família e velhas cicatrizes vêm à tona.

A dissimulação, a visão antiburguesa e a sensação de declínio moral reproduzem traços da obra de Luis Buñuel, mas Farhadi sempre mantém os pés bem fincados no chão. Nenhum personagem se destaca, apesar de o Paco de Javier Bardem surgir como um anjo que cai em desgraça, tragado pela série de intrigas.

Ele é um dos ex-lavradores que adquirem pedaços de terras aparentemente estéreis, se tornando o dono da principal propriedade do povoado mais tarde. O seu sucesso é colocado de cabeça para baixo, como um ato de traição e exploração, após se envolver amorosamente com Laura (Penélope Cruz, esposa de Bardem).

O roteiro é muito bem construído, deixando falsas pistas pelo caminho e expectativas que se frustram logo depois. Uma delas é a relação de Paco e Laura, que parecem reviver o passado amoroso, mas que só conseguem ver as sobras sendo avidamente disputadas pelos que estão à volta.

O relógio caindo aos pedaços do alto da igreja, exibido na cena inicial, é a síntese da história, sobre um tempo que está muito presente e longe de ser corrigido, como mostra os últimos movimentos do filme, quando todos fazem o caminho de volta para casa, exalando a sensação de que nada foi verdadeiramente resolvido.