Enquanto lê o poema “Conselho aos Meus Filhos”, de Bárbara Heliodora, a atriz Inês Peixoto tira das árvores do jardim interno da Casa Fiat de Cultura vários “frutos”, representativos da presença feminina na poesia mineira.

A performance, que será apresentada em formato on-line, no sábado, às 10h, faz parte da celebração dos três séculos de Minas Gerais, buscando reforçar o papel da mulher nesta história, pontuada por apagamentos.

“É importante trazer um pouco deste fio da história, da condição da mulher enquanto criadora, mostrando a dificuldade que ela enfrentou e enfrenta ainda muitas vezes para conseguir assinar suas obras”, observa Inês.

Percurso
A atriz do grupo Galpão salienta que foi construído um percurso, a partir do poema de Heliodora, participante do movimento da Inconfidência Mineira, saindo do século 18 e chegando aos dias de hoje, totalizando 22 poetisas.

“São imagens bastante metafóricas, em que colho, durante a fala do poema, os nomes de várias poetas que continuaram preenchendo este lugar até os dias de hoje”, destaca. As árvores, por sinal, são mangueiras centenárias da época da fundação de BH.

Inês Peixoto lembra que Bárbara Heliodora, primeira poetisa do Brasil, foi ignorada por muitas décadas, já que a mulher era proibida de escrever. Ela só teria o reconhecimento da autoria dos poemas bem mais tarde.

“A história dela é muito pesada, pois perdeu marido (Alvarenga Peixoto, condenado ao degredo perpétuo na África), a filha Maria Ifigênia (morreu ao cavalo aos 13 anos) e os bens. Foi uma mulher muito forte e culta”, analisa.

Diferentes perfis
Para a escolha das homenageadas, a atriz fez uma pesquisa na Academia Mineira de Letras e buscou um resultado mais equilibrado, que contemplasse diversas épocas e perfis. Entre os nomes mais recentes está o de Ana Martins Marques.

“A Ana Martins é algo de extraordinário na atualidade. Os poemas dela são de uma beleza, de uma sensibilidade incrível”, elogia Inês, que recentemente tem lido muita poesia devido a um projeto ainda inédito do Galpão.

“Antes da pandemia, a gente estava quase estreando um espetáculo a partir de trabalhos de poetas contemporâneos vivos do Brasil inteiro, incluindo mulheres como a Ana Martins. Estávamos em contato bem íntimo com este material”, assinala.

O projeto não tem data para estrear. O grupo vem realizando trabalhos para o universo virtual, sem previsão para retornar às apresentações presenciais. “Estamos bem ativo nas redes sociais, com documentários e projetos vídeos curtos”, reforça.

Ela revela que, devido às origens de teatro de rua do Galpão, apresentações ao ar livre podem ser uma alternativa de voltar a estar mais próximo de seu público. “Como temos muitos atores e uma estrutura grande, é mais complexo fazer dentro do teatro”.