“Da lama ao caos, do caos à lama...”, cantou alto uma jovem, na Praça 7, ao ver a manifestação do artista plástico Severino Iabá. Ele se cobriu de lama e, ao meio-dia desta sexta-feira (13), sob cerca de 30 graus centígrados, se deitou sobre o cimento quente, ao lado de cartazes de alerta com os nomes dos mortos e desaparecidos na lama, após o rompimento da barragem em Mariana, no dia 5 de novembro.
 
A trilha sonora improvisada é da obra do cantor e compositor pernambucano Chico Science (1966- 1997), precursor do movimento musical “manguebeat”, que traz referências ao duro trabalho nos mangues. Já a performance intitulada “Lama de Morte” foi idealizada por Iabá e pela também artista plástica Eliane Velozo. Ambos são “pernamineiros”, pernambucanos radicados em Minas há cerca de 20 anos.
 
Eliane diz que a intervenção é um “site specific”. Esta foi a forma que encontraram, como artistas, para cobrar respostas e um plano de ação para que a tragédia em Mariana não se repita. O termo explica obras criadas de acordo com um espaço determinado. Nele, os elementos do entorno – no caso, o asfalto, o calor, gente passando – dialogam com a obra traduzida pela impactante visão de um homem coberto de lama no chão.
 
Realmente, o calor é impossível de ser ignorado, o impulso de socorrer também. Então, uma mulher chega com uma garrafa de água mineral para o artista plástico. Ela joga sobre ele, para refrescá-lo. Depois, ele bebe água em outra garrafa, doada por outra cidadã.
 
“Imagine este chão quente. Imagine o que não está acontecendo por lá (em Mariana, Leste de Minas e demais localidades atingidas). É de arrepiar!”, diz, com os olhos cheios de lágrimas, a estudante de Letras Luiza dos Santos, 22 anos, que despejou a água no artista plástico e saiu correndo para o trabalho.
 
“Tenho uma filha de cinco anos. Vi os nomes das crianças mortas no desastre. Imagino o que estas mães estão passando. Não é porque a lama não chega aqui que tudo isso não vai nos atingir de alguma forma”, reflete Rosa Garcia, 22 anos, a moça que matou a sede do artista.
 
“Esse protesto é em virtude do ‘não-acidente’. Acidente é o que não se espera. Mas aquilo que aconteceu era previsível”, comenta Eliane. A artista plástica tem, no currículo, ações como a “arte pública” do “Manifesto das Flores”. O projeto existe há 11 anos e, nele, centenas de flores são feitas em papel crepom com manifestos pela paz. Elas são instaladas em locais públicos e distribuídas.

Um coração entre a França e Minas Gerais

A psiquiatra e desenhista francesa Héloïse Delavenne Garcia, radicada no Brasil, é outra artista que também expôs a emoção dela sobre o acidente em Mariana. A artista conhece bem a região histórica onde está a cidade e já utilizou estes cenários como inspiração de vários desenhos dela.

No perfil que criou no Facebook, intitulado “Desenhos de uma francesa no Brasil", ela publicou um dos desenhos que faz por meio do processo do “urban sketchers” (desenhos urbanos de observação). “A lama que artravessa e destroi... Como integrar essa tragédia e começar a pensar as atividades humanas a longo prazo?”, postou.

Héloïse está radicada em Belo Horizonte há quatro anos, onde se casou com um mineiro, com quem tem a primeira filha, a pequena Lis, de dois meses. Há cerca de um ano, a desenhista organizou em BH, uma exposição com os trabalhos que faz. Todos eles certamente com menos dor que o desenho a seguir:

 

Hoje em Dia

O ANTES E O DEPOIS - Desenho de Héloïse mostra a degradação em Mariana e foi postado no perfil que mantém no Facebook

 

Mais intervenções
 
No início desta semana, no Rio de Janeiro, um grupo de jovens artistas também se cobriu de lama e se posicionou em frente à sede mundial da mineradora Vale para uma intervenção. As imagens correram pelas redes sociais por meio da hashtag “#NãoFoiAcidente”. Ainda ontem, em frente à sede da Vale, no município de Serra (ES), um grupo usou um caixão e muita lama para encenar a destruição que chega à região cortada pelo Rio Doce.
 
Com forte atuação na recuperação das nascentes da bacia do Rio Doce, o Instituto Terra, em Aimorés, criado pelo fotojornalista Sebastião Salgado é outra instituição da qual tem sido cobrado um posicionamento sobre o acidente. Muitos têm demonstrado preocupação no Facebook da ONG. “É estranho o silêncio do Instituto Terra sobre a destruição, provavelmente total, do Rio Doce”, postou um internauta.
 
À frente do Instituto Terra, o fotógrafo Sebastião Salgado antecipou seu retorno ao Brasil, no final desta semana, para se inteirar da tragédia ambiental. Leia mais no links do Hoje em Dia a seguir: