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Edmundo Correa e Andrea Diniz posam para a foto no icônico corredor do Matriz

Avessos aos holofotes, Edmundo Correa e Andrea Diniz não gostam de propagandear seus feitos por aí. O casal sempre preferiu trabalhar nos bastidores, longe dos cliques e entrevistas –no melhor estilo underground. E se Belo Horizonte hoje tem uma cultura alternativa vívida e pulsante, muito se deve à dupla, que há 18 anos gere o Matriz Casa Cultural, ponto de encontro entre diferentes linguagens artísticas – da música pesada ao samba, do teatro à poesia, do eletrônico ao hip hop.

Para falar do Matriz, porém, é necessário antes voltar aos anos 80, quando Edmundo abriu seu primeiro espaço cultural – o saudoso Calabouço, no bairro Primeiro de Maio. O bar, que funcionava na casa dele, surgiu como um ponto de encontro da militância política e cultural do bairro. “Quando surgiu o Centro Cultural Primeiro de Maio, em 1980, começamos a fazer as Feiras de Cultura Popular. Era um evento de três dias, com debates, exposições, oficinas e apresentações musicais. Dessa experiência, veio a ideia de abrir um espaço para fazer as reuniões políticas”, relembra Edmundo, que abriu o Calabouço em 1983, junto ao irmão e então sócio Marcos Correa. “Depois, decidimos ampliar o bar, incluindo a música ao vivo. O Primeiro de Maio tinha uma cultura muito rica, com vários grupos de choro, samba, congado, rock, teatro. E o Calabouço virou um ponto de referência para os artistas de BH”, completa.

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Markú Ribas se apresenta ao lado da filha Júlia no Calabouço, nos idos de 1980

Nomeado em homenagem ao estudante secundarista Edson Luís (morto pela Polícia Militar do Rio de Janeiro em 1968, dentro de um bar chamado Calabouço), o espaço começou a crescer e a receber nomes como Celso Adolfo, Tadeu Franco, Toninho Horta, Markú Ribas, Zeca Baleiro e Chico César. “Depois, foram surgindo as bandas de pós-punk e de metal. O movimento hip hop também estava chegando com tudo”, relembra Edmundo, conhecido por ver a cultura sob a ótica da pluralidade. “Minha ideia, desde sempre, foi dar lugar para todos. Nunca liguei para essa coisa de tribos”, afirma.

No Calabouço, Edmundo conheceu Andrea, moradora do Primeiro de Maio, que entrou “de cabeça” na organização das Feiras de Cultura. “O Calabouço era incrível. Edmundo fazia coisas maravilhosas, como uma exposição de imprensa independente que me marcou muito. Conheci muita gente, me abriu a cabeça”, relembra Andrea. “Nos envolvemos e estamos juntos desde então, há 27 anos”, afirma. 

Migrando para o centro

Do Calabouço, que durou até 1996, Edmundo migrou para o Butecário, bar que funcionava na sede do Sindicato dos Bancários, no centro. Já com o apoio de Andrea, fez do espaço um point da então aquecida cena de hardcore de BH. “O Butecário durou cinco anos. Lá, fizemos os primeiros shows do Dead Fish, do Matanza e do Los Hermanos em BH. Teve, também, Mukeka di Rato, DFC, Blind Pigs. O foco era o rock, mas também teve muita MPB”, diz, citando Jorge Mautner e Zezé Motta.

Foi em 2000, com o fim do Butecário, que Edmundo e Andrea decidiram se arriscar. “Vendi tudo o que tinha. A Andrea saiu do emprego, pegou a indenização e juntamos esse investimento para abrir o Matriz. Viemos para cá sem casa nem nada”, afirma Edmundo. “A ideia era misturar Calabouço e Butecário, então fizemos uma programação ampla e começamos a trabalhar com produtores de vários estilos”.

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Público lota o Matriz no primeiro show internacional que a casa recebeu, em 2000, da banda alemã Bambix

A partir dali, o Matriz tornou-se referência para a cultura alternativa de BH – e segue firme, até hoje. “Foram centenas de shows de rock, mais de 80 internacionais. Vários de samba, como Nelson Sargento e Dona Zica; de MPB, como Lô Borges e Jards Macalé; de música eletrônica, como Anderson Noise e Patife. Sem contar os encontros de violeiros, que eram muito presentes, e as peças de teatro, sarais e exposições”, afirma Edmundo. “É muita história”. 

Vida de concessões e recompensas

Edmundo e Andrea ressaltam a importância de ações solidárias e de formação de público feitas pelo Matriz. “Sempre mantivemos espaço aberto para as bandas novas. As matinês, ideia da Andrea, foram muito importantes nesse sentido. Muitas bandas que estão na ativa até hoje fizeram seus primeiros shows nas matinês”, relembra Edmundo, destacando, também, o Matriz Solidária – festival de música que acontece há 15 anos, na época do Natal, recolhendo doações de alimentos e brinquedos para creches da periferia da capital. 

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Bira da Favela entrega homenagem a Dona Zica da Mangueira durante o Tributo a Cartola, no Matriz, em 2000

Para o casal, a vida dedicada ao underground tem suas concessões e recompensas. “Hoje, fazemos muitas festas para manter o Matriz, porque só com shows não dá mais. Mas as festas seguem dando espaço ao oprimido. Aos LGBTs, às mulheres, aos negros. Nunca perdemos a essência ideológica”, diz Edmundo. “É um trabalho cansativo, mas muito importante para a cidade. Por isso, continuamos, independente de resultados financeiros. Nunca vai sobrar dinheiro, fazemos pela militância. Essa é nossa vida. Até quando, eu não sei”, finaliza.

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Nos últimos anos, o Matriz vem abrindo cada vez mais espaço na programação para as festas, a maioria delas ligadas a temáticas sociais, como a luta LGBT, representada pela festa Dengue, que realiza o Duelo de Vogue