Lá se vão quase quatro décadas desde o lançamento de “Pixote: A Lei do Mais Fraco”, considerada uma obra-prima de Hector Babenco e que narra a dura realidade de menores carentes em reformatórios e as mazelas nas ruas. Restaurado pela The Film Foundation, organização sem fins lucrativos fundada pelo diretor Martin Scorsese, o filme será exibido na CineOP, a ser realizado entre os dias 3 e 7 de setembro.

“A restauração de obras audiovisuais é um processo muito custoso e que não vem sendo viabilizado há uns anos no Brasil. Falo no sentido de um processo minucioso, por falta de recursos”, destaca a curadora da Temática Restauração do festival on-line Ines Aisengart Menezes. “‘Pixote é o segundo filme brasileiro a ser restaurado por esse programa, da Film Foundation; o primeiro foi ‘Limite’ (1931), de Mário Peixoto”, continua a preservacionista audiovisual.

Criada em 1990, a organização de Scorsese já restaurou 42 obras cinematográficas, de 25 países. No caso de “Pixote”, como enfatiza Ines, “os materiais utilizados para a restauração de imagem estavam na cinemateca brasileira, e a restauração foi realizada em Bologna, na Itália”.

Pixote

“Foi feito majoritariamente a partir do negativo de câmera de 35mm. Essa cópia restaurada circula bastante no mundo. O filme foi exibido em Bologna, em Londres, em Mumbai... E aqui no Brasil houve algumas exibições”, destaca ela, entusiasmada em rever o filme no festival de Ouro Preto. “Teremos também um debate desse filme com Myra Babenco, filha do Hector Babenco, e também mais duas pessoas envolvidas no processo de restauração”, diz.

Myra, aliás, foi responsável direta pela restauração do filme, e ressaltou em outras oportunidades o anseio de fazer o mesmo com outras obras da filmografia do pai.

Ines

Ines Aisengart Menezes é a curadora da Temática Resturação da CineOP

Preservação

Outro ponto importante ressaltado por Ines, além da restauração de filmes, é a preservação deles, algo que estará na pauta da CineOP. “A restauração é auxiliar neste sentido. É preciso focar na preservação também. Temos sérios problemas disso no Brasil. Passamos por sucessivas crises na cinemateca brasileira, e o patrimônio como um todo está sob risco neste momento”, declara.

“Temos como efeméride os 70 anos da TV brasileira (um dos temas da mostra). Aquilo que mereceria uma celebração, da ótica da preservação serve de alerta. São 70 anos de dispersão e perda de acervos televisivos. Mas, infelizmente, no Brasil todas as perdas sucessivas não se tornaram um alerta, nem acarretaram recursos. O patrimônio cultural brasileiro está acenando há muito tempo, e o Estado não tem sido eficiente nisso”, comenta.