A chuva que caiu sobre Ouro Preto, na tarde desta sexta-feira (6), não desanimou o público que veio acompanhar o 11° Fórum das Letras, que iniciou na última quarta-feira (4), e segue até domingo (8). Com o tema "Diversidade Cultural + Liberdade de Expressão", a programação visa ressaltar a importância da literatura como instrumento de formação de opinião e expressão democrática, essencial para a condição humana.

Entre uma ladeira e outra da cidade histórica é possível encontrar uma banquinha improvisada com alguns livros, ou revistas de autores independentes. Pessoas que vieram de fora do Estado, andam olhando para cima. O que elas procuram? "As bandeirinhas com a marca do evento, pois a programação acontece nos lugares onde elas estão afixadas", responde a professora universitária Rita Lima, de 52 nos, que veio do Rio de Janeiro.

Uma das salas do Museu da Inconfidência se tranformou, temporariamente, na livraria do Fórum das Letras. No espaço circulam visitantes, curiosos, moradores da cidade, estudantes, e algumas famílias. "Acompanhamos algumas messas de debate, e um evento do Fórum das Letrinhas. Nos interessamos pela fala de um dos escritores e viemos buscar o livro", conta o administrador de Belo Horizonte Fernando Dias, de 41 anos, que está em Ouro Preto com o filho Leandro Dias, de sete anos, e comprou um exemplar da publicação "Quem manda aqui", um livro de política para as crianças.

Política, literatura e performances

A programação dessa sexta-feira (6) contou com intervenções musicais, e diversas mesas de debate, como a intitulada "Interações e Performances", que reuniu o jornalista e escritor gaúcho Antonio Holfeldt, e o "hacker" do bem, o paulistano Pedro Markun, no Cine Vila Rica, o grande "point" do evento. Mediado pelo jornalista, psicólogo e escritor carioca, Felipe Pena, o centro do debate foi o descontentamento com a política atual, e a forma como a literatura contribui para um cenário positivo.

Antes de passar a palavra para os debatedores, Pena pediu palmas para os sobreviventes da tragédia ocorrida na tarde de ontem (5), em Mariana. "Não podemos começar as atividades do dia sem antes lembrar e lamentar o que aconteceu ontem", comentou.

Sobre o tema proposto na mesa, o web-ativista Markun afirmou que a diferença está em sair do Facebook. "Não podemos ficar somente no campo das ideias e discussões. É preciso colocar em prática o que pensamos", afirma ele, que juntamente com outros ativistas articularam uma "vaquinha" para comprar um ônibus, no qual viajam o

Brasil ministrando oficinas e levando conhecimentos de várias naturezas para as pessoas.

"O ônibus hacker está presente em vários lugares, e tem uma presença forte em Minas Gerais", afirma ele que é autor do livro "Quem manda aqui". E complementou "A grande contribuição da literatura é a de recriar o nosso imaginário político, que está impregnado pela figura do coronel, e outros. É o imaginário que constrói a realidade".

Para o escritor gaúcho Antonio Holfeldt, a grande novidade que temos no cenário atual é o fato de saber o que está acontecendo. "Roubo sempre aconteceu na política, mas agora eles estão aparecendo, o que antes não acontecia. E nisso a tecnologia ajuda muito", considerou. Holfeldt diz que o congresso que temos é um reflexo da sociedade. "Você colocar um carro no estacionamento ocupando duas vagas também é corrupção", comparou.

Apesar das constatações, ele percebe avanços. "As organizações não governamentais e os movimentos criados pela população, que não fica de braços cruzados, é um grande passo", pontua. Para ele, "não estamos pior que antes, mas se deixarmos de fazer política as coisas com certeza pioram".

Homenagem a Graciliano Ramos

O debate que inaugurou o Fórum das Letras de Ouro Preto, na quarta-feira (5), fez uma homenagem grande escritor alagoano, Graciliano Ramos, cuja obra é marcada por alta complexidade social, política e psicológica. A mesa "Graciliano Ramos e a liberdade de expressão" contou com a presença do escritor Ricardo Ramos e da ensaísta Elizabeth Ramos, netos do autor, além de Audálio Dantas, autor de "A infância de Graciliano Ramos", e Wander Melo Miranda, autor de diversos estudos e livros sobre o escritor. Uma exposição, intitulada "A palavra foi feita para dizer", foi montada no Museu da Inconfidência e reúne manuscritos, fotos e vídeos em memória do escritor.

Intensa programação

Até domingo serão cerca de 40 sessões, entre debates, workshops e intervenções artísticas, com a participação de mais de 80 autores de nacionalidades diversas. Nomes como Ana Elisa Ribeiro, Betty Mindlin, Carlito Azevedo, Cecília Boal, Christian Dunker, Conceição Evaristo, Cremilda Medina, Fabio Weintraub, Felipe Pena, Geraldo Carneiro, Heliete Vaitsman, Jards Macalé, João Batista Melo, Jorge Mautner, Juremir Machado, Laerte Coutinho, Luize Valente, Marcelino Freire, Miriam Leitão, Pedro Vasquez, Roger Mello, Sérgio Abranches e Vladimir Safatle, entre outros integram a programação. Nessa lista estão também os estrangeiros John Dinges (EUA), José Luís Peixoto (Portugal) e Lopito Feijóo (Angola).