Quem se recorda da sequência de sangue no carro de estofado branco de "Cães de Aluguel" (1992) ou do tiroteio interminável de "Bastardos Inglórios" (2009), deve esperar um misto dos dois em "Django Livre". Quentin Tarantino não perdeu o gosto sagaz pelo extermínio com requintes de crueldade e irreverência e extraiu de Django (Jamie Foxx, de Ray, 2004) e Calvin Candie (Leonardo DiCaprio, de "Titanic", 1997) todos esses atributos.

O filme, que estreia nesta sexta-feira (18) em todo o Brasil, já faturou US$ 15 milhões dos Estados Unidos, onde assisti ao longa, em um cinema com direito a garçon e comidinhas durante a sessão - o Alamo Drafhouse Cinema, em Houston, Texas. Apesar da sala cheia (era Natal e, na noite do dia 25, por lá, é comum ir ao cinema para uma grande estreia), houve norte-americano que torcesse o nariz para o filme, devido ao alto teor violento e à proximidade com o ataque em Newtown, no estado do Connecticut, que terminou com 26 mortos, entre eles 20 crianças.

O filme, de fato, torna-se ácido para quem relaciona ao episódio trágico, mas Tarantino não adiou a estreia por conta disso (mas a pré-estreia sim). No estilo bang-bang, o diretor abusou da ironia, do sotaque texano - ora incorporado pro Brad Pitt em "Bastardos Inglórios", e deixou mesmo muita gente incomodada com tanto sangue e piadas de gosto politicamente questionável. "Django Livre" não é continuação ou remake de "Django", filme de Sergio Corbuccie, de 1966. Mas é óbvio que Tarantino bebeu da fonte do "Spaghettti Westerns". Comprovação disso é o fato de Tarantino ter Franco Nero, verdadeiro Django, no elenco, a mesma trilha-tema e os traços de imponência de um pistoleiro do Oeste.

Ao tratar de um escravo que conseguiu a liberdade e tornou-se um exímio matador, Django polemiza ainda mais a história da sociedade negra norte-americana que, ainda nos dias atuais, convive com o preconceito e a divisão de raças.

O filme passa-se no Texas, com direito a cavalos, xerife, grandes fazendas, mocinhas e bandidos.

Os fãs do diretor norte-americano poderão, ainda, rever a ironia e sarcasmo de Christoph Waltz (de "Água Para Elefantes", 2011), dessa vez na pele do dentista caçador de recompensas alemão, King Schultz. Ele liberta Django e ajuda-o a resgatar sua mulher, Broomhilda (Kerry Washington, "O Último Rei da Escócia", 2006): uma escrava que é violentada e humilhada em uma fazenda administrada por ninguém menos do que Stephen (Samuel L. Jackson, de "Star Wars", 2002).

A atração deve agradar, também, os amantes de MMA. Em uma cena asquerosa de intensa luta livre, os espectadores com estômago forte devem urrar com os lutadores, mas já adianto: é mesmo para quem tem apetite por pancadaria.

As cifras estratosféricas conquistadas pelo novo filme de Tarantino são respeitáveis, afinal, é a terceira melhor bilheteria de um filme de classificação restrita, devido às fortes cenas que beiram à selvageria.

E se é praxe encontrar sexo e violência nas tramas de maior sucesso, Tarantino deixou passar uma boa dose na brutalidade - há quem atinja um êxtase quase sexual nas diversas cenas de socos, pontapés, murros e tortura do filme. O diretor não contemplou tanto assim as sequências de sexo - que é retratado apenas em olhares sinuosos de um desejo proibido - como o do protagonista por sua amada.

Fato é que há momentos, como em "À Prova da Morte" (2007), em que a plateia já prevê o fim do filme e, só então, percebe que não está nem no meio do enredo. Não que seja por falta de elementos para prender a atenção, mas há certas cenas que cansam o espectador e beiram ao tédio. Acreditem! Ainda assim, Tarantino é Tarantino e faz todo sentido torcer pela estreia e assistir "Django Livre" preparado para ficar incomodado com tamanha violência, mas satisfeito com uma vingança digna (além de, claro, ver o diretor atuando em seus filmes).

Tarantino já explanou na imprensa que pretende ligar "Django Livre" e "Bastardos Inglórios" em um outro longa que deve se chamar "Killer Crow".

Indicações ao Oscar

"Django Livre" concorre às estatuetas por melhor filme, melhor ator coadjuvante (para Christoph Waltz) e melhor roteiro original (Tarantino).
 



Versão de 1966: