De 2009 para cá, o chamado reflorescimento do Carnaval de BH fez pipocar diversos blocos pela cidade, colocando-a de vez no mapa da folia no país. Além da contestação política que marcou a Praia da Estação, mola propulsora para a retomada do Carnaval, a festa na capital mineira tem outra característica preponderante na história dos blocos e na formação musical e social de batuqueiros e foliões: a potência feminina, refletida em diversas mulheres que estão na linha de frente da folia, entre regentes, instrumentistas e produtoras.

Figura essencial para o Carnaval de rua de BH, a percussionista e regente de blocos Chaya Vazquez ressalta o enfrentamento das mulheres no meio percussivo, ainda majoritariamente masculino. “Percebo que pouquíssimas pessoas sabem, de fato, como ainda é difícil para a mulher encontrar um espaço realmente aberto na maioria das manifestações culturais do mundo quando o assunto é tocar tambor. Há, em grande parte das culturas, uma porta fechada, cada uma com sua ‘justificativa’ sobre o porquê da mulher não poder ocupar certos espaços nessas manifestações”, afirma. 

Responsável por formar uma legião de batuqueiros na cidade, a percussionista Daniela Ramos faz coro. “Ter mulheres ocupando os mesmos postos e espaços que homens não é fácil. Escutamos muita asneira, sofremos vários preconceitos e, muitas vezes, ofensas. A representatividade de mulheres em posição de liderança, seja no Carnaval ou em qualquer ambiente, nos dá a certeza de que ainda há muita luta”, ressalta.

Representatividade e dificuldades

Idealizadora do bloco afro Angola Janga, a produtora Nayara Garófalo lembra ainda o atraso quanto à representatividade da mulher negra no Carnaval de BH. “Fico feliz por cada mulher que se emancipa e entendo e respeito a representatividade delas para outras mulheres brancas. Me alegro por isso. Infelizmente, porém, poucas são consideradas de representatividade para mim ou para outras mulheres negras da cidade, porque não podemos parar jamais na discussão de gênero, sem evoluir este debate para outras pautas que interferem na igualdade que pregamos e queremos”, sublinha. “Existe uma questão racial que, infelizmente, não pode ser esquecida justamente porque não nos deixam esquecer”, completa, citando referências inspiradoras como Vanessa Beco, do bloco Arrasta Favela.

Para a regente e produtora Lira Ribas, há mesmo que se reconhecer os recortes dentro da própria representatividade das mulheres para haver espaço, também, para as mulheres trans, negras, periféricas. “As mulheres têm competência para comandar e estar na linha de frente. Temos que forçar sim esses espaços, criando ferramentas que nos coloquem como representantes de nós mesmas dentro da festa”, afirma. Para a produtora cultural Janaína Macruz, algumas mudanças já são percebidas nos últimos anos. “Vejo isso, por exemplo, na própria imprensa. Há cinco anos, só víamos entrevistas com homens sobre a retomada do Carnaval de BH”, diz.

A percussionista e regente Nara Torres ressalta, porém, que a equidade de gênero ainda está distante no cenário musical de BH. “Acho que ainda é pouco, ainda estamos engatinhando. Por isso, temos que continuar exaltando, enaltecendo, jogando foco, trazendo visibilidade para a mulher na música”, afirma, citando outras mulheres, como Analu Braga, Alcione Oliveira, Poliana Tuchia, Sandra Leão, Isabela Leite e as irmãs Adriana, Jabu e Aline Morales. “Ainda há um estranhamento com a presença da mulher na música. No dia em que a gente chegar num festival e metade das bandas tiver metade de integrantes mulheres, então poderemos considerar uma conquista”.