GRAMADO – O diretor Kleber Mendonça Filho brinca que usou os efeitos especiais mais baratos da história do cinema, apenas estampando no início de “Bacarau” a seguinte legenda: “Daqui a alguns anos”. Apresentado na abertura do Festival de Gramado, sexta-feira, o filme pernambucano é o que os realizadores definem como um “western futurista sertanejo”.

Passada numa cidadezinha fictícia do interior nordestino, a história mostra o confronto dos moradores locais com pistoleiros americanos que matam por esporte, numa ambientação que lembra muito os filmes de faroeste. O pé na ficção científica tem outro objetivo: falar da realidade atual do país e do mundo de uma forma metafórica, numa leitura que Mendonça Filho prefere deixar inteiramente a cargo do espectador.

Na coletiva sobre a obra, vencedora do Prêmio do Júri no Festival de Cannes, em maio, o cineasta observa que livros e filmes distópicos sempre mostraram fatos estabelecidos sem precisar explicar nada. “Adoro ‘2001, uma Odisseia no Espaço’. A única cena que me incomoda nele é o instante em que se explica o funcionamento de um banheiro em gravidade zero”.

Um exemplo dessa simbologia presente em “Bacarau” está numa rápida sequência, perto do fim, em que a câmera foca um aparelho de TV ligado. Na imagem, lê-se “As execuções recomeçarão às 14 horas”, indicando o Vale do Anhangabaú, em São Paulo, como local dos acontecimentos. “Historicamente, em situações de guerra e revoluções, as áreas centrais são usadas para execuções”, afirma Mendonça Filho.

Ele cita a Bastilha, símbolo da opressão do regime francês tomado pelos populares, em 1789, como exemplo de clássico destas ações. “Como acontece em São Paulo, você deve imaginar que há uma ideia de instabilidade social”, registra o cineasta, que ainda faz referências ao assassinato da vereadora carioca Marielle Franco. Sonia Braga, que interpreta uma médica e líder da comunidade de “Bacarau”, dedica o filme a ela. “Quero saber quem matou Marielle! Marielle vive sim!”, bradou a atriz, ganhando aplausos da plateia. Seu nome aparece ao lado de João Pedro Teixeira, líder das ligas camponesas, morto em 1962, a mando de latifundiários paraibanos.

Não falta também uma alusão à discussão sobre a liberação do uso de armas. No filme, elas estão guardadas num museu que recorda o tempo dos cangaceiros. “As armas deveriam ser destruídas, mantendo apenas um número x em arquivos, para lembrarmos como funcionavam e para que serviam”, pondera Mendonça Filho. 

(*) O repórter viajou a convite da organização do Festival de Gramado